terça-feira, 26 de abril de 2016

Interpretação de crônica argumentativa | Pesadelo paulistano (Ensino médio)

Pesadelo paulistano

É triste, irritante e assustador constatar que, de uns tempos pra cá, na maioria dos bares e restaurantes de São Paulo há uma ou mais TVs ligadas.
Provavelmente não é um problema só de São Paulo, e o resto do Brasil e do mundo também mantenha esses estridentes retângulos luminosos focados nos olhos e nos ouvidos dos seus bêbados e glutões. Mas vamos nos concentrar na nossa aldeia, seguindo o conselho atribuído ao russo Anton Tchékhov (1860-1904), que, se viveu numa era pré-penicilina, pelo menos teve a sorte de frequentar tavernas ainda não dominadas pelo rosto e pela voz do Faustão.
Não sei explicar o porquê dessa moda. Imagino que se as TVs de plasma se tornaram símbolo de status – o dono de bar/restaurante que não tem a sua está excluído do mercado. Ele precisa fornecer esse serviço ao consumidor. Ou então elas são uma reação publicitária à cidade limpa do prefeito Kassab: se não se podem usar outdoors, enfiam as propagandas porta adentro. Mas como não entendo nada de negócios & coisas afins paro minha “análise” aí. O que não me impede de protestar. 
O fato é que a TV foi inventada cinquenta anos antes das TVs de plasma e nem por isso o pessoal do ramo da comida e da bebida era obrigado a colocá-la nos seus estabelecimentos. Agora elas estão por toda parte.
Pessoalmente, não me incomodo de assistir, uma vez ou outra, a alguma partida de futebol, embora não torça pra time nenhum. Durante o jogo, se o públicos faz questão, tudo bem: TV ligada.
A tela verde por duas horas, às vezes um lance que vale a pena ser visto... e fim. Quem quiser ouvir os comentaristas do “Cartão Verde”, que vá pra casa. [...]
Eu também acho a vida um tédio.
Mas nem sempre. Não quando estou com pessoas que gosto, comendo bolinho de abóbora e tomando cerveja. Nesses momentos, que direito tem o Datena de me contar que um caminhão atropelou uma garota de cinco anos na Raposo Tavares e, além disso, repetir a cena sessenta e quatro vezes? “É a realidade brasileira, mano”, me disse um garçom a quem perguntei se ele não cansava daquele programa sensacionalista. E ele tem razão.
Por isso, resolvi criar uma campanha. O leitor interessado recorta o haicai abaixo (cedido por um amigo que prefere não se identificar) e guarda-o na carteira. Aí, quando tiver a infelicidade  de beber e comer no mesmo ambiente em que o Nicolas Cage está decepando a cabeça de monges medievais possuídos pelo demônio, é só pedir a conta e, junto com o dinheiro, deixar na pastinha o poema – o espaço sublinhado preenchido  com o nome da bodega. Quem sabe a gente não muda um pouco a realidade paulistana.

QUE CILADA
ATÉ NO _____________
TEM TV LIGADA

Fabrício Corsaletti. (Folha de S.Paulo, 15/1/2012.)

1) A crônica é um texto geralmente curto que apresenta a visão pessoal do cronista sobre um fato colhido do noticiário de jornais ou revistas ou no cotidiano. A crônica lida revela a visão do cronista sobre um fato veiculado em jornais ou sobre um fato do cotidiano?

2) Diferentemente das crônicas narrativas ficcionais, a crônica “Pesadelo paulistano” não se limitada a narrar um fato de forma particular. Ela vai além, pois o cronista expõe seu ponto de vista sobre o assunto. Releia o texto e responda:

a. Já no título há uma referência à tese defendida no texto: Qual é o pesadelo paulistano” a que o cronista se refere?

b. Qual é o ponto de vista do cronista sobre esse fato?

c. Identifique, entre os trechos da crônica reproduzidos abaixo, aqueles em que o autor explicita seu ponto de vista.

> “É triste, irritante e assustador constatar que, de uns tempos pra cá, na maioria dos bares e restaurantes de São Paulo há uma ou mais TVs ligadas.”
>  “vamos nos concentrar na nossa aldeia, seguindo o conselho atribuído ao russo Anton Tchékhov (1860-1904)”
> “O fato é que a TV foi inventada cinquenta anos antes das TVs de plasma”
> “Quem quiser ouvir os comentaristas do “Cartão Verde”, que vá pra casa.”
> “Eu também acho a vida um tédio. Mas nem sempre. Não quando estou com pessoas que gosto”

3) O cronista faz ressalvas ao ponto de vista que defende e traz vozes de outras pessoas e, com isso, leva o leitor a pensar que sua opinião não é radical nem sem fundamentação. Identifique no texto trechos em que, ao fazer essas ressalvas, o cronista mostra que:

a. leva em consideração possíveis motivos para a ocorrência do fato criticado;
b. aceita conviver com a situação;
c. considera e respeita a opinião de outras pessoas.

4) Essa crônica apresenta ideia principal, desenvolvimento e conclusão. Releia o último parágrafo do texto.

a. Como último argumento, que exemplo o autor cita a fim de comprovar sua tese e persuadir o leitor?

b. Na conclusão, o cronista apresenta uma proposta para tentar resolver o problema apontado. Qual é essa proposta? Ela diz respeito a uma postura ativa ou passiva dos clientes?

Gabarito:

1) Sobre um fato do cotidiano

2) 
a. O pesadelo, para o cronista, é a presença ininterrupta de TVs ligadas em bares e restaurantes de toda a cidade.
b. Ele é contra essa onipresença da TV em bares e restaurantes.
c. “É triste, irritante e assustador constatar que, de uns tempos pra cá, na maioria dos bares e restaurantes de São Paulo há uma ou mais TVs ligadas.”

3) 
a. “Imagino que se as TVs de plasma se tornaram símbolo de status – o dono de bar/restaurante que não tem a sua está excluído do mercado. Ele precisa fornecer esse serviço ao consumidor. Ou então elas são uma reação publicitária à cidade limpa do prefeito Kassab: se não se podem usar outdoors, enfiam as propagandas porta adentro.”

b. “Pessoalmente, não me incomodo de assistir, uma vez ou outra, a alguma partida de futebol, embora não torça pra time nenhum. Durante o jogo, se o públicos faz questão, tudo bem: TV ligada. A tela verde por duas horas, às vezes um lance que vale a pena ser visto...”

c. “se o públicos faz questão, tudo bem: TV ligada.” “É a realidade brasileira, mano”, me disse um garçom a quem perguntei se ele não cansava daquele programa sensacionalista. E ele tem razão.”

4) 
a. Uma situação em que o leitor estaria bebendo e comendo em um ambiente em que a TV estivesse exibindo um filme com cenas de violência e sangue. 

b. O cronista propõe que o cliente registre uma queixa, manifestando sua insatisfação pela presença da TV no estabelecimento. Essa proposta pede uma postura ativa dos clientes para interferir na realidade, tentando mudá-la. 




Referência: Texto e Interação - Willian Cereja e Thereza Cochar | Editora Atual
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