Interpretação de artigo de opinião para ensino médio O que devemos aos jovens- Lya Luft (Progressão tópica)

O que devemos aos jovens


Para onde estamos fugindo? (clique aqui para acessar este artigo de opinião)

Fiquei surpresa quando uma entrevistadora disse que em meus textos falo dos jovens como arrogantes e mal-educados. Sinto muito: essa, mais uma vez, não sou eu. Lido com palavras a vida toda, foram uma de minhas primeiras paixões e ainda me seduzem pelo misto de comunicação e confusão que causam, como nesse caso, e por sua beleza, riqueza e ambiguidade. 
Escrevo repetidamente sobre juventude e infância, família e educação, cuidado e negligência. Sobre nossa falha quanto à autoridade amorosa, interesse e atenção. Tenho refletido muito sobre quanto deve ser difícil para a juventude esta época em que nós, adultos e velhos, damos aos jovens tantos maus exemplos, correndo desvairadamente atrás de mitos bobos, desperdiçando nosso tempo com coisas desimportantes, negligenciando a família, exagerando nos compromissos, sempre caindo de cansaço e sem vontade ou paciência de escutar ou de falar.
[...] Tenho muita empatia com a juventude, exposta a tanto descalabro, cuidada muitas vezes por pais sem informação, força nem vontade de exercer a mais básica autoridade, sem a qual a família se desintegra e os jovens são abandonados à própria sorte num mundo nem sempre bondoso e acolhedor. Quem são, quem podem ser, os ídolos desses jovens, e que possibilidades lhes oferecemos? Então, refugiam-se na tribo, com atitudes tribais: o piercing, a tatuagem, a dança ao som de música tribal, na qual se sobrepõe a batida dos tantãs. Negativa? Censurável? Necessária para muitos, a tribo é onde se sentem acolhidos, abrigados, aceitos. Escola e família ou se declaram incapazes, ou estão assustadas, ou não se interessam mais como deveriam. Autoridades, homens públicos, supostos líderes, muitos deles a gente nem receberia em casa. O que resta? A solidão, a coragem, a audácia, o fervor, tirados do próprio desejo de sobrevivência e do otimismo que sobrar. Quero deixar claro que nem todos estão paralisados, pois muitas famílias saudáveis criam em casa um ambiente de confiança e afeto, de alegria. Muitas escolas conseguem impor a disciplina essencial para que qualquer organização ou procedimento funcione, e nem todos os políticos e governantes são corruptos. Mas quero também declarar que aqueles que o são já bastam para tirar o fervor e matar o otimismo de qualquer um. 
Assim, não acho que todos os jovens sejam arrogantes, todas as crianças mal-educadas, todas as famílias disfuncionais. 
Um pouco da doce onipotência da juventude faz parte, pois os jovens precisam romper laços, transformar vínculos (não cuspir em cima deles) para se tornar adultos lançados a uma vida muito difícil, na qual reinam a competitividade, os modelos negativos, os problemas de mercado de trabalho, as universidades decadentes e uma sensação de bandalheira geral. 
Tenho sete netos e netas. A idade deles vai de 6 a 21 anos. Todos são motivo de alegria e esperança, todos compensam, com seu jeito particular de ser, qualquer dedicação, esforço, parceria e amor da família. Não tenho nenhuma visão negativa da juventude, muito menos da infância. Acho, sim, que nós, os adultos, somos seus grandes devedores, pelo mundo que lhes estamos legando. Então, quando falo em dificuldades ou' mazelas da juventude, é de nós que estou, melancolicamente, falando. 

LUFT, Lya. Veja, p. 26, 16 dez. 2009. (Fragmento). 


1. O artigo de opinião é um texto argumentativo em que o articulista procura persuadir o leitor de um determinado ponto de vista. 

a) O que poderia ter causado a interpretação equivocada, mencionada pela autora na introdução? 
b) Qual é o ponto de vista da autora defendido nesse texto? 

2. Do segundo ao quinto parágrafo, encontra-se o desenvolvimento dos argumentos, em que a autora usa a progressão tópica. 

a) No segundo parágrafo, por que a autora diz que os adultos estão "atrás de mitos bobos"? 
b) No terceiro parágrafo, a articulista empregou perguntas como recurso argumentativo para desenvolver suas opiniões. Explique de que forma essas perguntas levam o leitor a compreender que o comportamento dos adultos está equivocado. 

3. A paragrafação pode determinar a sequência do conteúdo, mantendo a continuidade das ideias e a coerência do discurso. Como a autora mantém a progressão tópica entre o segundo e o terceiro parágrafos, dando coerência às ideias? 

4. Com o objetivo de esclarecer melhor seu ponto de vista sobre o assunto, a autora desenvolveu comparações e explicações no quarto parágrafo. 

a) Que imagem ela nos passa dos adultos em geral? 
b) De que modo ela parece expressar sua solidariedade aos jovens no quinto parágrafo? 

5. Na progressão tópica, pode haver continuidade ou descontinuidade na sequência do discurso. Nesse caso, o quarto e o quinto parágrafos do texto apresentam tópicos contínuos ou não? Justifique sua resposta. 

6. Na conclusão, a autora retoma à ideia inicial e confirma o ponto de vista defendido no desenvolvimento. Como ela reforça a opinião de que os adultos estão em dívida com os jovens? 

7. Como já vimos em outros textos argumentativos, para conferir maior impressão de objetividade à exposição de ideias, é comum o emprego da 3ª pessoa do singular. 

a) Nesse artigo, em que pessoa foi construído o texto? Por quê? Transcreva alguns exemplos. 
b) Além da linguagem subjetiva, observa-se no artigo algum trecho que revele emoção? Esclareça sua resposta. 
c) Outros traços de subjetividade existentes no texto são o uso de adjetivos com alta carga opinativa e a tentativa da autora de dialogar de igual para igual com o leitor. Cite alguns exemplos. 
d) As marcas de subjetividade que aparecem no texto comprometeram de alguma forma a consistência da argumentação apresentada pela autora? Por quê? 

A progressão textual: progressão tópica 
O texto argumentativo pode ser desenvolvido por meio de um recurso de textualização conhecido por progressão textual.
Um importante recurso da progressão textual é a progressão tópica, pois, na exposição de nossas ideias, sempre nos apoiamos em um tema ou tópico discursivo para desenvolver o texto. A progressão tópica, portanto, diz respeito à manutenção e ao desenvolvimento dos assuntos ou tópicos discursivos tratados ao longo do texto.
Observe, no artigo acima, como Lya Luft desenvolve a argumentação, distribuindo o conteúdo de cada parágrafo em subtópicos que introduzem informações e argumentos novos. A continuidade do texto se estabelece pela chamada progressão tópica ou sequenciamento tópico.

> Concluindo: Progressão tópica é o recurso de textualização responsável pela manutenção e pelo desenvolvimento dos assuntos ou tópicos discursivos tratados ao longo do texto. 


Gabarito

1.
a) Pessoal. Sugestão: É possível que a autora tenha abordado, em outros textos, problemas relacionados aos jovens, e sua postura pode ter sido mal compreendida. 
b) Ela considera os adultos (pais, professores e autoridades) responsáveis pela situação difícil em que vivem os jovens na sociedade atual, sem bons lideres e modelos a serem seguidos. 

2.
a) Talvez porque as pessoas acreditem que há valores mais importantes a conquistar, como nos faz crer a sociedade moderna, do que desfrutar mais tempo do amor familiar e da alegria com os amigos. 
b) A autora faz uma pergunta longa, questionando o papel que os adultos desempenham na vida dos jovens: "Quem são, quem podem ser, os ídolos desses jovens, e que possibilidades lhes oferecemos?". Depois disso, com duas perguntas curtas, indaga se a atitude dos jovens que se reúnem em tribos é errada: "Negativa? Censurável?". Por fim, conclui que a tribo é necessária para a maioria dos jovens, pois "é onde se sentem acolhidos, abrigados, aceitos". 

3. No segundo parágrafo, ela critica a atitude dos adultos e a si própria pelos valores errados que são passados aos Jovens. E, no terceiro parágrafo, dá continuidade a essa crítica, ao censurar o comportamento de certos pais que negligenciam a educação dos filhos, levando a juventude ao refúgio das tribos. Mostrando-se solidária e compreensiva, a autora justifica a atitude dos jovens, que não têm modelos adequados para seguir. 

4.
a) Segundo ela, apesar da atitude negligente de certas famílias e escolas e da falta de responsabilidade de algumas autoridades em relação a juventude, há muitas pessoas comprometidas com suas obrigações, que acolhem os jovens e os orientam. 
b) Ao expor a situação adversa a ser enfrentada pelos jovens na sociedade atual, tanto na conquista de seus ideais quanto no acesso ao mercado de trabalho. Essa menção das dificuldades a serem enfrentadas por eles pode ser entendida como uma atitude de solidariedade. Em outros pontos do texto, ela também deixa clara essa atitude: "Tenho muita empatia com a juventude". 

5. Há continuidade tópica, já que, no quarto parágrafo, a autora volta ao tema ou tópico do parágrafo anterior, mantendo a crítica aos adultos, mas acrescentando novas informações, com a ressalva de que há pessoas mais velhas que constituem exemplos para a Juventude. No quinto parágrafo, ela continua a defender os jovens, justificando a atitude de onipotência deles como um instrumento para enfrentar o mundo nessa fase da vida. 

6. Ao reafirmar que não tem uma visão negativa da juventude e declarar que os adultos são os grandes responsáveis pelo mundo problemático que estão legando aos jovens. 

7. 
a) O texto foi construído na l' pessoa, o que dá um sentido subjetivo ao conteúdo, tornando-o mais pessoal: "Fiquei surpresa"; "em meus textos falo dos jovens"; "Sinto muito: essa, mais uma vez, não sou eu". Espera-se que o aluno perceba que, nesse caso, o uso da 1 a pessoa é possível porque o texto foi produzido para uma coluna assinada pela autora, que goza de certa reputação e credibilidade. Os leitores da revista esperam a opinião pessoal dela e não a de outro autor. 
b) Sim, quando a autora diz que se surpreendeu com as palavras da entrevistadora: "Fiquei surpresa". Ou quando parece se exaltar: "supostos líderes, muitos deles a gente nem receberia em casa. O que resta?". Ou ainda, quando se mostra triste: "é de nós que estou, melancolicamente, falando". 
c) Adjetivos: bobos, desimportantes, incapazes, assustadas. Frases: "Tenho muita empatia com a juventude, exposta a tanto descalabro"; "Quem são, quem podem ser, os ídolos desses jovens, e que possibilidades lhes oferecemos?"; "Quero deixar claro"; "Tenho sete netos e netas". 
d) Espera-se que o aluno perceba que a maior subjetividade do texto não comprometeu a consistência da argumentação, pois a autora se baseou em fatos concretos, como o comportamento dos jovens e de seus pais, ou dos adultos em geral, para fundamentar a argumentação. 



Referência: Oficina de Redação - Editora Moderna
Imagem: Google
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