quarta-feira, 6 de julho de 2016

Prova sobre Barroco brasileiro


AVALIAÇÃO DE LITERATURA – BARROCO BRASILEIRO

Nome: ___________________________________ :______  Série:______ Data:___________

1. (UPE) 
Buscando a Cristo

1 A vós correndo vou, braços sagrados, 
2 Nessa cruz sacrossanta descobertos, 
3 Que, para receber-me, estais abertos, 
4 E, por não castigar-me, estais cravados. 

5 A vós, divinos olhos, eclipsados 
6 De tanto sangue e lágrimas abertos 
7 Pois, para perdoar-me, estais despertos, 
8 E, por não condenar-me, estais fechados. 

9 A vós, pregados pés, por não deixar-me, 
10 A vós, sangue vertido, para ungir-me, 
11 A vós, cabeça baixa p'ra chamar-me. 

12 A vós, lado patente, quero unir-me, 
13 A vós, cravos preciosos, quero atar-me, 
14 Para ficar unido, atado e firme. 


GUERRA, Gregório de Matos. Poemas Escolhidos. São Paulo: Cultrix, 
1989. 

Considerando a escola literária Barroco, analise as afirmativas a seguir. 

I. O soneto apresenta metonímias que vão relacionando as partes de Cristo ("braços", "olhos", "pés", "sangue", "cabeça"), substituindo, aos poucos, o todo: Cristo crucificado. Com esse recurso, percebe-se que cada uma das partes do corpo revela uma atitude acolhedora, de bondade e de comiseração, o que assegura ao eu lírico fé e confiança. 
II. Nesse poema, é perceptível o trabalho com figuras de linguagem representando o aspecto conceptista do Barroco. É um jogo de palavras que se desenvolve também com outros recursos, como as anáforas em "Vós" (v. 5, 9, 10,11,12 e 13), o que parece registrar o desejo do eu lírico de se encontrar com Cristo. 
III. No soneto, nota-se uma das características típicas da estética barroca, o uso de situações ambivalentes, que permitem a dupla interpretação, como se vê nessa passagem - "braços abertos e cravados" (presos); os braços estão abertos para receber o fiel e, ao mesmo tempo, fechados para não castigá-lo pelos pecados cometidos. 
IV. O texto expõe, de maneira exemplar, ao longo dos versos decassílabos, em linguagem rebuscada, o tema do fusionismo na personificação do fiel, que reconhece os sinais do acolhimento de Cristo e, por isso, esse fiel manifesta o seu desejo de "ficar unido, atado e firme", reforçando ainda a constatação da fragilidade humana. 
V. Por suas idiossincrasias quanto à visão dos pares antagônicos - pecado/perdão - o poeta utiliza, no final do, poema, alguns versos livres e brancos, com os quais obtém um efeito mais leve, de caráter religioso, também cultivado pelo conceptista Padre Vieira. 

Está correto o que se afirma em: 
a) I, II e III. 
b) I, III e IV. 
c) II, III e IV. 
d) II, IV e V. 
e) III. IV e V. 

2. (UnS-DF) 

O tempo, como o Mundo, tem dois hemisférios: um superior e visível, que é o passado, outro inferior e invisível. que é o futuro. No meio de um e outro hemisfério ficam os horizontes do tempo, que são esses instantes do presente que vamos vivendo, em que o passado se termina e o futuro começa. Desde este ponto, toma seu princípio a nossa História, a qual nos irá descobrindo as novas regiões e os novos habitadores desse segundo hemisfério do tempo, que são os antípodas do passado. Oh! que cousas grandes e raras haverá que ver nesse novo descobrimento! 

Considerando o fragmento de texto acima, de Antonio Vieira, julgue os itens a seguir como corretos (C) ou errados (E). 

a) Do ponto de vista geográfico, os hemisférios Ocidental e Oriental são considerados uma referência temporal, e não, espacial, uma vez que dizem respeito ao estabelecimento dos fusos horários ao redor do globo. 
b) A descoberta da América, com a posterior colonização das novas terras por portugueses e espanhóis, integrou um contexto de transformação histórica que aprofundou a crise do feudalismo e descortinou, para a Europa, novos horizontes de exploração. 
c) A História realiza-se em determinado espaço e é contingenciada pela passagem do tempo, razão pela qual o estudo do passado assegura o domínio do conhecimento acerca da direção a ser trilhada pelas sociedades. ou seja. ela permite a previsibilidade do futuro. 
d) Conforme a analogia entre tempo e espaço apresentada no texto. o tempo presente pode ser adequadamente denominado como uma espécie de linha do Equador do tempo. 
e) No texto. padre Vieira intenta uma analogia entre a descoberta do tempo futuro pela 'História' e a do Novo Mundo pelos europeus. 

3. (UFPI) A propósito do Sermão da Sexagésima, leia o que afirmou o prof. Alcir Pécora. 

O sermão volta-se para sua própria composição e examina os 3 'concursos' essenciais que há nele (graça, pregador e ouvinte), para saber qual deles pode ser causa da falta de eficácia dos sermões contemporâneos na reforma dos cristãos. Admitida que a falta apenas pode ser do pregador, examina as suas 5 'circunstâncias' (pessoa, estilo, ciência, matéria e voz) como causa principal do fracasso do sermão. Este deve-se sobretudo ao 'falso testemunho' do pregador que, embora utilizando palavras de Deus, não as toma em seu sentido original, mas distorce-as segundo seus interesses e o propósito de agradar ao auditório. Em vez de desenganá-lo e reformar os seus costumes como é sua obrigação. 

VIEIRA, Padre Antônio. Sermões, P~CORA, Alcir (Org. e introdução). São Paulo: Hedra, 2000. p. 28. 

A partir dessa síntese e da leitura do sermão, só não podemos afirmar que: 

a) o padre Antônio Vieira identifica alguns problemas conceituais na feitura dos sermões de seu tempo, no século XVII, e acusa outros pregadores de incidirem em erro retórico quando pronunciam sermões construídos sem adequação. 
b) o autor afirma que um sermão fracassa quando não "desengana" o auditório, ou seja, quando o orador não expõe o mundo de enganos ou ilusões em que acusa o auditório viver. 
c) o Sermão da Sexagésima afirma que alguns pregadores têm distorcido os sentidos da palavra divina quando a empregam para agradar ao auditório. 
d) o autor afirma que a finalidade discursiva de um sermão é agradar seu público. 
e) o autor afirma que alguns pregadores, mesmo sem errar quanto aos concursos e circunstâncias do sermão, erram porque confundem a finalidade do gênero do sermão, que é corrigir costumes e reformar mentalidades cristãs. 

4. (UFT-TO) Analise as afirmativas abaixo sobre o texto "À instabilidade das coisas no mundo", de Gregório de Matos. 

Á instabilidade das coisas no mundo

1. Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, 
Depois da luz se segue a noite escura, 
Em tristes sombras morre a formosura, 
Em contínuas tristezas a alegria. 

5. Porém se acaba o Sol, por que nascia? 
Se formosa a luz é, por que não dura? 
Como a beleza assim se transfigura? 
Como o gosto da pena assim se fia? 

Mas no Sol, e na luz, falte a firmeza, 
10. Na formosura não se dê Constância, 
E na alegria sinta-se tristeza. 

Começa o mundo enfim pela ignorância, 
E tem qualquer dos bens por natureza 
A firmeza somente na inconstância. 

MATOS, Gregório de. Poesias selecionadas. São Paulo: FTD, 1993. 
p.60. 

I. Considerando que a arte literária reflete o contexto histórico em que se encontra inserida, é certo dizer que o texto de Gregório de Matos pertence ao Barroco, movimento literário associado à Reforma e à Contrarreforma e expressa, de forma estética, as angústias existenciais do homem seiscentista. 
II. O soneto gregoriano abarca a temática do tempo fugaz e da sorte instável que se desenvolve a partir de um jogo de imagens e ideias que se contrapõem: nasce vs não dura (v. 1), luz vs noite escura (v. 2), tristes sombras vs formosura (v. 3), tristezas vs alegria (v. 4). 
III. O texto estrutura-se segundo os princípios do conceptismo, voltado para a ornamentação exagerada de um estilo marcado pela presença de paradoxos (v. 1-8). 
IV. O sentido de efemeridade abarcado pelo título do poema é justificado, no decorrer do texto, por expressões tais como: "falta firmeza" (v. 9), "não se dê Constância" (v. 10), "firmeza somente na inconstância" (v. 14) que fazem parte do campo semântico do vocábulo instabilidade. 
V. Na tentativa de conciliar os opostos, assumindo uma postura fusionista, o soneto de Gregório de Matos encerra-se com uma justaposição de contrários, marcada pelo uso da antítese: "A firmeza somente na inconstância" (v. 14). 

A partir da análise das questões, podemos concluir que as alternativas: 
a) I, II e III estão corretas. 
b) I, II e IV estão corretas. 
c) I, IV e V estão corretas. 
d) II, III e IV estão corretas. 
e) II, III e V estão corretas. 

Á cidade da Bahia
Soneto

"Pondo os olhos primeiramente na sua cidade, conhece que os mercadores são o primeiro móvel da ruína em que arde, pelas mercadorias inúteis e enganosas" 
AMADO, James. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1992. p. 333. 

Triste Bahia! ó quão dessemelhante 
Estás e estou do nosso antigo estado! 
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, 
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante, 
Que em tua larga barra tem entrado, 
A mim foi-me trocando, e tem trocado, 
Tanto negócio e tanto negociante. 

Deste em dar tanto açúcar excelente 
Pelas drogas inúteis, que abelhuda 
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus, que de repente 
Um dia amanheceras tão sisuda 
Que fora de algodão o teu capote! 

MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, introdução e notas de 
José Miguel Wisnik. São Paulo: Cultrix, 1981. p. 18-19. 

Bahia - cidade de Salvador 
estado - situação, condição de vida 
empenhado - endividado 
trocar - nos dois sentidos: comerciar e mudar 
máquina mercante - as naus do comércio 
deste em dar - principiaste, começaste a dar 
simples - droga, remédio 
brichote - estrangeiro (pejorativo) 
sisuda - ajuizada 
capote - capa larga e longa 

No soneto, a Bahia, personificada, é objeto das recriminações do poeta, como frequentemente ocorre em seus poemas satíricos. 

5. Nas duas primeiras estrofes, ele faz um paralelo entre a sua vida e a da cidade, descrevendo as transformações que ambas sofreram. 
a) Qual era a antiga situação de suas vidas? 
b) E a situação presente?

6. A antítese é uma das figuras de linguagem mais utilizadas pela literatura barroca. 
a) Liste as antíteses utilizadas por Gregório de Matos e indique a que tempo (passado ou presente) cada palavra se refere.
b) O que revela o uso intenso da antítese no poema? 

7. A vida do poeta foi mudada pelos maus negócios e pelos negociantes mais espertos que ele. A que ele atribui as mudanças de estado da cidade?
8. Releia a terceira estrofe e responda: segundo o poeta, por que a Bahia, na época a maior exportadora mundial de açúcar tinha tanto prejuízo no comércio internacional? 

9. Na última estrofe, ele formula um desejo, exprimindo-se por meio da metáfora do "capote de algodão". Explique o desejo do poeta e a importância da metáfora na composição do poema. 

10. 

Pintura admirável de uma beleza 

Vês esse sol de luzes coroado? 
Em pérolas a aurora convertida? 
Vês a lua de estrelas guarnecida? 
Vês o céu de planetas adornado? 

o céu deixemos; vês naquele prado 
A rosa com razão desvanecida? 
A açucena por alva presumida? 
O cravo por galã lisonjeado? 

Deixa o prado; vem cá, minha adorada: 
Vês desse mar a esfera cristalina 
Em sucessivo aljôfar desatada? 
Parece aos olhos ser de prata fina? 
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada 
À vista do teu rosto, Catarina. 

MATOS, Gregório de. In: WISNIK,josé Miguel (Org.). 
Poemas escolhidos. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 223. 

Nas estrofes 1, 2 e 3 do poema, o eu lírico menciona três diferentes ambientes físicos. 

a) Quais são esses ambientes? 
b) Como é marcada linguisticamente a transição de um ambiente para outro? Para responder a essa questão, observe o primeiro verso das estrofes 2 e 3. 
c) Em qual desses ambientes se encontra o eu lírico? Transcreva uma palavra do poema que comprove sua resposta . 
d) Qual é o tema do texto? 


Gabarito:

1B 

2.
a) errado
b) correto
c) errado
d) correto
e) correto

3D
4B 

5.
a) Antigamente a cidade era rica e ele, possuidor de muitos bens.
b) O poeta vê a cidade empobrecida e se diz "empenhado", isto é, endividado ou com seus bens penhorados para pagamento de dívidas.

6. 
a) Pobre (presente); rica (passado); vejo (presente); vi (passado); empenhado (presente); abundante (passado).
b) No poema, o uso intenso da antítese revela as mudanças, ou "dessemelhanças de estado", sofridas pelo poeta e pela cidade.

7. Para ele, a culpa do empobrecimento da cidade deve ser atribuída à "máquina mercante", ou seja, às naus que aportavam na cidade para comerciar, e, por extensão, ao próprio comércio internacional do açúcar.

8. Segundo ele, a Bahia trocava o excelente açúcar que produzia por drogas inúteis. Em outras palavras, o capital estrangeiro que recebia pela exportação do açúcar era utilizado na importação de futilidades e artigos de luxo.

9. O poeta deseja que a Bahia seja "sisuda", isto é, que ela tenha siso, juízo, e abandone o estilo de vida luxuoso e de gastos inúteis que vinha levando. O "capote de algodão" representa a roupa do povo, barata (de algodão) e despretensiosa, e simboliza a vida simples.

10.
a) Na primeira estrofe, o céu; na segunda, o campo; na terceira, o mar. 
b) Nos primeiros versos das estrofes 2 e 3, o eu lírico sugere que se abandone o ambiente anterior e se passe para um novo espaço de metáforas. Na estrofe 2, saímos do céu e entramos no campo; na estrofe 3, saímos do campo e entramos no mar. Linguisticamente, a transição é marcada pelas frases "O céu deixemos" (estrofe 2) e "Deixa o prado" (estrofe 3). 
c) O eu lírico se encontra no mar ou na praia. Isso se evidencia pelo uso da palavra cá, na expressão "vem cá", quando convida a amada a observar as gotas das espumas das ondas. 
d) O poema trata da beleza de Catarina. Ele pode ser entendido como um grande elogio direcionado à amada. 



Referências: Língua Portuguesa - Coleção Ser Protagonista (Editora SM), Novas Palavras (Editora FTD)
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