segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Interpretação da Carta de Pero Vaz de Caminha


Carta de Pero Vaz de Caminha
Pero Vaz de Caminha
[...]
E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra [...]. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos. 
Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chá, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz! 
Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. [...]. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante - por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças - até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras, em frente da boca de um rio. [...]. 
E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro. 
Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou a boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte. 
[...] E sexta pela manhã, as oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar âncoras e fazer vela. [...]
E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. [...] 
E estando Monso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, [...] meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas [...] Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa. 
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber. 
Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como de cera, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar. 
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem-vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam- e tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata! 
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. 
Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. 
Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. 
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitas, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. 
[...] 

BRASIL: Carta de Pero Vaz de Caminha. Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/carta_caminha.htm>. Acesso em: 16 out. 2012. 


GLOSSÁRIO

achamento: forma que, no século XVI, era mais usada que "descobrimento". 
batel: pequeno barco usado para navegar do navio até a terra e vice-versa. 
braça: antiga medida equivalente à extensão que vai de uma mão aberta à outra, em um adulto com os braços estendidos horizontalmente para os lados. 
confeição: confecção. 
esquife: pequeno barco de mesma utilidade que o batel, porém menor que este. 
haver vista de: avistar. 
horas de véspera: fim da tarde. 
mar de longo: mar ocidental. 
oitavas: período de oito dias durante os quais é celebrada uma festa religiosa. 
prumo: instrumento constituído de uma peça de metal ou de pedra, suspensa por um fio, utilizado para determinar a direção vertical. 
alcatifa: tapete. 
almadia: embarcação comprida e estreita, fabricada com um só tronco de árvore. 
beiço: lábio. 
Capitaina (mesmo que capitânia): em um conjunto de navios, aquele em que se acha embarcado o comandante (capitão). 
corredio: liso. 
coto: objeto de pequenas dimensões. 
de sobre pente: de leve, por alto. 
magoar: ferir, machucar. 
mancebo: jovem, moço. 
mão travessa: medida equivalente à largura da palma da mão. 
míngua: falta. 
obra de: cerca de. 
roque de xadrez: a torre do jogo de xadrez. 
terra chã: terra plana. 
sol posto: pôr do sol. 
solapa: cavidade encoberta, escondida de modo que não se consegue ver. 
tosquiado: que tem o cabelo cortado rente. 
toutiço: parte posterior da cabeça, nuca. 
vergonhas: os órgãos genitais humanos. 


1. A Carta de Pero Vaz de Caminha apresenta trechos descritivos e trechos narrativos. 
a) No trecho citado, que elementos (lugares, pessoas) Caminha descreve ao rei? 
b) Resumidamente, que acontecimentos e ações dos portugueses e dos nativos são narrados? 

Em sua carta ao rei de Portugal, Caminha relata o que os navegantes portugueses viram e fizeram em sua chegada às novas terras. Portanto ela pode ser classificada como relato de viagem. Ao ler um relato de viagem, ficamos conhecendo não só o povo e a cultura do lugar visitado, mas também a visão de mundo daquele que viaja e faz o relato. 

2. A carta do achamento é um dos poucos documentos de que dispomos para saber como foi a chegada dos portugueses às terras que hoje fazem parte do Brasil e como os indígenas os receberam. De acordo com o trecho lido, a frota portuguesa foi recebida com hostilidade?

3. O texto de Caminha revela que os portugueses se surpreenderam com o comportamento dos indígenas e que eles tinham algumas expectativas em relação à nova terra. Escreva as deduções que podem ser confirmadas pelo conteúdo da carta. 

a) A cor da pele dos habitantes da nova terra e o fato de andarem nus chamam a atenção de Pero Vaz de Caminha, que resolve relatar essa observação na carta. 
b) Caminha surpreende-se com a falta de cerimônia dos dois nativos para com o capitão (Cabral), sem imaginar que a hierarquia dos tripulantes portugueses não tinha validade alguma para eles. 
c) O escrivão percebe e valoriza o fato de que os portugueses estão sendo recebidos pelos habitantes do lugar de maneira pacífica, e essa percepção ganha grande destaque em sua carta.
d) O fato de os dois nativos apontarem para o colar de ouro do capitão e para o castiçal de prata é interpretado pelos portugueses como uma possibilidade de que esses minérios pudessem ser encontrados nas novas terras.

4. Você acha provável que os habitantes da nova terra também tenham estranhado o comportamento dos portugueses? Explique sua resposta.

5. Complete a frase no caderno:

Se Caminha estranhou a nudez dos indígenas e sua falta de cerimônia, isso mostra que ele____________________.

a) pertencia a uma cultura em que a nudez era vista com naturalidade, como expressão da beleza humana.
b) pertencia a uma cultura em que a nudez era escondida, cercada de tabus e motivo de vergonha.
c) julgava o comportamento dos nativos pelo ponto de vista dos costumes europeus.
d) tinha consciência de que a cultura europeia não era a única legítima e que outros povos tinham costumes tão válidos quanto os seus - ainda que muito diferentes.


Gabarito:

1.
a) Ele descreve rapidamente a paisagem avistada da nau (um grande monte, serras, planície com arvoredos) e detalha os dois habitantes da nova terra que foram levados a presença do capitão (Cabral). 

b) A descoberta de sinais de terra; o momento em que os portugueses veem a terra, as naus que se aproximam da costa e os navegantes quando percebem os habitantes nativos; a apresentação de dois indígenas a Cabral; o comportamento dos nativos diante dos portugueses. 

2. Não, o trecho citado não revela hostilidade por parte dos indígenas. 

3. A | B | D

4. Professor, converse com os alunos sobre essa questão: certamente os navegantes portugueses também causaram espanto, com suas roupas pesadas, sua alimentação, suas regras de comportamento, sua religião, seus hábitos de higiene (bastante precários em relação aos banhos diários que os indígenas tomavam nos rios). 

5. B | C




Referência: Viva Português (Editora Ática)
Imagem: Google
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