terça-feira, 20 de setembro de 2016

Interpretação de texto - A hora da estrela


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Leia alguns trechos de A hora da estrela.

Trecho I 
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer. [...] 
Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que o nunca vivi? É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe. [...] 
Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei [...]. 
O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contar sobre essa moça entre milhares delas. É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida. [...] 
Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de perguntar "que sou eu?" cairia estatelada e em cheio no chão. É que "que sou eu?" provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto. 

Clarice Lispector. A hora da estrela. Rio de janeiro: José Olympio, 1981, pp. 16-20. 


Trecho II 
Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade - para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim. [...] 
Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um não-sei-o-quê com ar de se desculpar por ocupar espaço. [...] Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. [...] 
Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para que, não se indagava. [...] 
Talvez a nordestina já tivesse chegado à conclusão de que vida incomoda bastante, alma que não cabe bem no corpo, mesmo alma rala como a sua. 

Clarice Lispector. Idem, pp. 30-40.



1. O personagem-narrador Rodrigo S.M. parece pedir desculpas ao leitor pela narrativa que apresentará. Apesar disso, não desiste de escrever e justifica a sua insistência. 

a) A que Rodrigo S.M. atribui a necessidade de escrever? 
b) Rodrigo S.M. avisa que vai tratar de uma personagem que vive "à toa". Por que essa personagem "cairia estatelada e em cheio no chão" caso se questionasse? 

2. Identifique duas metáforas por meio das quais o narrador expressa a insignificância da vida de Macabéa. 

3. Como Macabéa vive num estado de quase inconsciência, reduzida a uma condição tão rudimentar de existência, somente expirando e inspirando, o narrador a imagina livre dos desconfortos existenciais? Justifique sua resposta


Gabarito: 

1. 
a) O personagem-narrador afirma sua necessidade de escrever devido á intensa atração que um sentimento de perdição, de ruína, estampado no rosto de uma nordestina exerceu sobre ele. Além disso, declara que é um dever, uma obrigação contar a vida dessa moça, que, como milhares, anda anonimamente pelas ruas do Rio de Janeiro. 
b) A personagem vive à toa, não tem condição de refletir sobre sua existência, e, se o fizesse, não suportaria perceber que é alguém incompleto, não suportaria a angústia de pensar nas próprias carências.

2. “O seu viver é ralo. [...] ela era café frio.”

3. Apesar de Macabéa estar reduzida a uma existência exageradamente rudimentar, o narrador desconfia que ainda assim a moça sente os desconfortos existências. Ela não sabe identifica-los com precisão, mas talvez perceba que a alma “não cabe bem no corpo”, que há algo desarmônico, destoante.



Referência: Linguagem em Movimento (Editora FTD)
Imagem: Google
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