Interpretação de Triste Fim de Policarpo Quaresma

A seguir, você lerá dois trechos do romance Triste fim de Policarpo Quaresma. O primeiro está no início do romance e caracteriza a personalidade e as convicções de Policarpo. O segundo compõe o final do romance e retrata o estado em que se encontra o personagem ao término de sua trajetória. Leia-os para responder às questões propostas. 



TEXTO 1

 Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição, respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio - não é bonito! 
O major descansou o chapéu de sol - um antigo chapéu de sol, com a haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos de madrepérola - e respondeu: 
— Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo homem que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa, no século passado, com o Padre Caldas, que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um inglês notável, muito o elogia. 
— Mas isso foi em outro tempo; agora... 
 Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas tradições, os usos genuinamente nacionais... 
— Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias. 
O major entrou para um aposento próximo, enquanto sua irmã seguia em direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descansando. 
Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era forrado de estantes de ferro. 
Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o espírito que presidia a sua reunião. 
Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopeia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava nas estantes do major. 

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. Rio de Janeiro: Garnier, 1989. p. 15-16. Fragmento. 


GLOSSÁRIO
Capadócio: aquele que é pouco inteligente, ignorante.
Chapéu de sol: guarda-chuva


TEXTO 2

O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a vitória e senti-la bem na consciência cousa sua própria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? 
Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara – todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fosse... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupi, do folclore, das suas tentativas agrícolas... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram tão ferazes ela não era fácil como diziam nos livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. Rio de Janeiro: Garnier, 1989. 
p. 240-241. Fragmento. 


GLOSSÁRIO
Pandegara: farreara, entregara-se a festas.
Mofa: gozação, chacota
Ferazes: de grande força produtiva, férteis, fecundas.


a) A fala da irmã do major revela um preconceito típico do final do século XIX, mas que Policarpo Quaresma se recusa a aceitar. Que preconceito é esse?

b) Quais são os dois argumentos usados por Quaresma para tentar demover a irmã de seus preconceitos?

c) Releia o trecho que indica os autores da predileção de Quaresma e que constam em sua biblioteca. O que essas escolhas revelam sobre o personagem?

d) De acordo com o texto 1, a obra completa de José de Alencar consta na estante de Policarpo. Alencar foi um dos representantes do Romantismo brasileiro. Considerando o papel desempenhado por Alencar no contexto do Romantismo brasileiro, justifique a importância que o personagem dispensa á obra desse autor.

e) Compare o tom da narrativa no texto 1 e no texto 2. Que mudanças podem ser notadas no estado de ânimo de Quaresma?

f) Que passagem do texto 2 comprova que Policarpo Quaresma se arrepende de seu patriotismo ao fazer um balanço de sua existência?

g) Considerando  o texto 2, é possível inferir as críticas que Lima Barreto propõe por meio do personagem Policarpo Quaresma. Que críticas são essas e a quem se dirigem?


GABARITO

a) O preconceito contra os seresteiros, tocadores de violão, identificados, nesse período, como vagabundos, desocupados. 

b) Primeiro ele argumenta que as modinhas são “a mais genuína expressão da poesia nacional”; depois afirma que, até mesmo na Europa, as modinhas já tinham sido admiradas, em tempos passados, nas composições do padre Caldas.

c) As escolhas de Quaresma revelam seu patriotismo, pois, em sua estante, há unicamente autores nacionais ou assim considerados. 

d) Alencar foi o autor do Romantismo brasileiro que se dedicou á construção da identidade nacional, privilegiando, para isso, o encontro entre o português e o indígena. Além disso, Alencar tomou pra si a tarefa de mapear o Brasil em seus romances regionalistas. Como um nacionalista que é, Quaresma admira muito todos os autores que se preocuparam em retratar e valorizar o Brasil. 

e) No primeiro trecho, o personagem é otimista, retrata a cultura brasileira de um modo apaixonado e defende seus ideais. No segundo, Policarpo encontra-se desiludido, e depois de todos os seus projetos terem fracassado: todos riram de seu patriotismo, suas tentativas agrícolas fracassaram e a doçura eu ele atribuía ao brasileiro se transformara em força bruta, em violência desnecessária. 

f) Sugestão de resposta: “Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades” ou “Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada...”. 

g) São críticas que revelam o descaso com o país e a violência usada para acabar com a Revolta da Armada. Tais críticas são dirigidas á República: a época é descrita como um tempo de morte, carnificina, todos têm sede de matar. 
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