Relato pessoal sobre ditadura (Nas asas da liberdade)



Estudo do gênero

Por meio dos relatos pessoais, podemos registrar não apenas um fato pontual de nossa vida, mas também documentar experiências que, quando reunidas, constituem a memória de toda uma comunidade. É o caso do relato a seguir, em que a escritora Ana Maria Machado nos conta episódios de sua infância. Embora digam respeito à vida particular da autora, esses episódios revelam detalhes importantes de uma época em que vários países da América Latina viviam sobre regimes ditatoriais. 
Originalmente, o relato foi feito em um congresso de literatura realizado em Lima (Peru) em 2010, quando a escritora foi convidada a falar sobre a relação entre censura e literatura infantil. Mais tarde, esse relato oral foi transcrito, editado e incluído em um livro.
Leia o trecho reproduzido a seguir, assim como os itens do glossário e os boxes, que contextualizam a época em questão. Depois responda às perguntas propostas.

Nas asas da liberdade 

[...]
Meu primeiro contato com a censura não foi como criadora, e sim como leitora; na realidade, antes de ser leitora, durante a primeira ditadura que vivi, a de Getúlio Vargas, que governou o Brasil de 1930 a 1945. Eu nasci na última semana de 1941. Ou seja, quando ele saiu do governo eu ainda não tinha completado quatro anos. Porém, já sabia que, fora do âmbito familiar, no jardim de infância da escola pública que eu frequentava, não devia comentar que gostava muito das histórias de Monteiro Lobato que meus pais liam para mim em casa, com as aventuras daqueles maravilhosos personagens que encheram de encantamento a minha vida, e, mais tarde, a de meus filhos e a de meus netos. Na ocasião, eu só sabia que aquele era o nosso segredo, mas não imaginava as razões. Não sabia que Lobato, nosso maior escritor infantil, um pioneiro genial, fora preso pela polícia do ditador. Nem que seus livros sofriam variados graus de repressão. Era um pouco como a situação que o chileno Antonio Skármeta conta em seu livro infantil La composición — as crianças podem não saber os detalhes do que está acontecendo, mas percebem o universo político em que se movem. E as recomendações para que eu não falasse nas histórias de Lobato eram bastante claras. Eu as respeitava. 
Não sei em que medida essa clareza se acentuava pelo fato de eu ter sido presa pelo governo Vargas por causa da censura. Aos três anos de idade. Na verdade, o preso foi meu pai, jornalista e diretor do jornal, por ter escrito um artigo que o censor do governo não aprovou. Mesmo assim, meu pai conseguiu enganá-lo e publicar o texto. O jornal foi apreendido, claro, e a redação foi invadida pela polícia. O autor do artigo foi procurado em casa e na rua até ser encontrado e detido dentro de um ônibus e levado para o cárcere. Eu estava com ele, e as autoridades "permitiram" que eu ficasse em sua companhia por algumas horas até que um tio meu fosse chamado e pudesse vir me buscar. Uma permissão muito especial. Poucos anos depois, fomos morar em Buenos Aires, onde fui matriculada numa escola. Era o governo do general Juan Domingo Perón. Lá, um dia, a professora mandou fazer um desenho sob o título "Esta es mi bandera". Sou brasileira, desenhei a minha. Ela explicou que eu devia desenhar a argentina. Desenhei, mas pus o título "Esta es tu bandera", Não podia, tinha de ser todo mundo igual. Fiz novo desenho, dessa vez com as duas bandeiras. Mas a brasileira era maior. Fui expulsa da sala e mandada para a diretoria. Meus pais foram chamados ao colégio. Ouviram a explicação de que eu estava sendo expulsa por ser teimosa, rebelde e desrespeitosa com os símbolos da pátria. Um péssimo exemplo para os colegas. Aos seis anos. [...] 
De volta ao Brasil, aos sete anos, depois que a ditadura tinha acabado, fui estudar num colégio religioso. Lá, um dia, no pátio, foi feita uma fogueira de livros de Monteiro Lobato que tinham nos pedido para levar, de casa. Não todos. Mas me lembro de ter visto dois que já havia lido: Viagem ao céu e História do mundo para as crianças. Não eram os meus porque minha mãe não deixou que eu levasse nada. E tornou a me instruir para não falar no que tínhamos e líamos em casa. Perguntei à professora o motivo daquela fogueirinha - pequena, apenas de alguns volumes. Ela era carinhosa e foi muito paciente. Explicou que ler aqueles livros era pecado e que Lobato era comunista (coisa cujo significado eu não sabia e que só mais tarde vim a saber que ele não era). Disse que um dos livros contava a história do mundo falando mal da religião. E que o outro desrespeitava a Igreja, porque os personagens iam ao céu e não encontravam Deus: só viam planetas, cometas e estrelas. E ainda brincavam com anjos e com São Jorge de forma desrespeitosa. Também desse colégio acabei saindo antes do fim do ano (mas meus pais conseguiram papéis de transferência). Não sei bem por quê. 
[...] 

MACHADO, Ana Maria. Silenciosa algazarra: reflexões sobre livros e práticas de leituras. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 197-200. (Fragmento). 


GLOSSÁRIO 

Cárcere: prisão. 
Comunista: partidário do comunismo, doutrina política que defende a propriedade comum das riquezas naturais e dos meios de produção em uma sociedade. Os comunistas historicamente se opõem à igreja, por considerarem que ela ilude os fiéis e impede-os de tomar consciência de sua condição de oprimidos. 

Ana Maria Machado (1941) é autora de livros premiados para adultos e para o público infanto-juvenil. Já escreveu mais de cem livros. Atua no mundo acadêmico, é crítica literária e estudiosa de temas voltados à importância da prática da leitura nas escolas. É também membro da Academia Brasileira de Letras. 

Lobato: um escritor polêmico 
Criador do inesquecível Sítio do Pica-Pau Amarelo, Monteiro Lobato (1882-1948) é um dos maiores, senão o maior, nome da literatura infantil brasileira. 
O autor escreveu também importantes obras destinadas ao público adulto, como Urupês e Negrinho, e teve uma vida pública intensa: em 1918 fundou a primeira editora brasileira (até então nossos livros eram feitos em Portugal ou na França), em 1932 fundou uma empresa de exploração de petróleo e em 1941 foi preso pelas críticas que fazia publicamente a Getúlio Vargas, em especial à sua política petrolífera. Os dois livros mencionados por Ana Maria Machado em seu relato, Viagem ao céu e História do mundo para os crianças, foram publicados pela Companhia Editora Nacional, em 1932 e 1933, respectivamente. 

1. Por que a autora afirma que seu primeiro contato com a censura se deu antes mesmo de ser leitora? 
2. Ao contar sobre sua prisão, durante a ditadura de Vargas, a autora destaca uma informação aparentemente absurda. 

a) Qual é essa informação? 
b) Qual é a explicação para esse fato? 
c) Em sua opinião, com que intenção ela relata o episódio aos participantes do encontro? 

Saiba mais!
Getúlio Vargas (1882-1954) foi levado em caráter provisório à presidência do Brasil pela Revolução de 1930, mas permaneceu no poder até 1945. Embora tenha promovido reformas que modernizaram a economia e a organização sociopolítica do país, cerceou a liberdade de expressão e combateu com prisões e torturas seus inimigos políticos. 

3. Releia o episódio vivido pela escritora na Argentina. 

a) O que ele nos revela sobre a maneira de educar vigente na escola onde Ana Maria estudava? 
b) Leia o boxe a seguir. 

O militar Juan Domingo Perón (1895-1974) foi presidente da Argentina por três vezes. Muito popular entre os trabalhadores e com um programa nacional-desenvolvimentista, promoveu reformas na economia, concedeu amplos poderes aos sindicatos e efetivou políticas de distribuição de renda. Ao mesmo tempo, perseguiu seus opositores com ferocidade e instituiu a censura à imprensa. Perón é considerado o principal representante do populismo na América Latina, uma política que se apoia na relação carismática do líder com as massas trabalhadoras. 

Considerando essas informações e outros conhecimentos que você tenha acerca daquele período histórico, é possível afirmar que essa maneira de educar era exclusiva da escola frequentada por Ana Maria? Justifique.

4. Em relação ao episódio da queima dos livros de Lobato, a censura não era unicamente de cunho político. Explique essa afirmação. 

A destruição de livros é praticamente tão antiga quanto a própria existência deles. Em diferentes momentos da história, os livros foram parar na fogueira a mando de movimentos totalitários, tais como a Santa Inquisição, o nazismo alemão e o comunismo de Mao Tsé-Tung. Na sua opinião, o livro pode ser considerado um objeto ameaçador? Por quê? 

5. Por meio dos episódios relatados, que imagem podemos formar dos pais de Ana Maria Machado? 

6. Por que podemos dizer que as experiências relatadas pela escritora contribuem também para construir a memória coletiva das sociedades brasileira e argentina nos períodos focalizados? 

7. Além desse registro histórico, você acredita que o relato lido pode nos deixar alguma aprendizagem ou reflexão? Justifique. 

Relato pessoal é um gênero de texto oral ou escrito em que uma pessoa compartilha com o interlocutor uma experiência que viveu. Esse registro pode contribuir para construir uma memória coletiva de certo grupo social, em determinada época ou lugar, pode estimular a reflexão, deixar uma aprendizagem, ou meramente entreter o interlocutor.

Investigue em  História e Arte 
A história da humanidade registra inúmeros episódios de censura e de perseguição política, ideológica e religiosa. Com base nessa afirmação, relacione o regime militar brasileiro, o grupo paulistano Teatro Oficina, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht e o astrônomo italiano Galileu Galilei.




Gabarito:

1. Porque, já no jardim de infância, quando ainda nem sabia ler, percebeu que não era bom comentar que gostava das histórias de Monteiro Lobato que os pais liam para ela. Eles lhe diziam que era melhor manter "segredo" a respeito. 

2.
a) É a informação de que ela foi presa "aos três anos de idade". 
b) Na verdade, o pai de Ana Maria é que foi preso, e ela, como estava em sua companhia, teve "permissão especial" para permanecer na cela com ele até a chegada de um tio. 
c) Resposta pessoal. Sugestão: Provavelmente para surpreender a audiência. 

3. 
a) Era uma maneira autoritária e castradora de educar: todos deveriam agir do mesmo modo e ter as mesmas ideias, senão seriam tachados de "rebeldes" e excluídos do grupo, como ocorreu com ela. Não havia espaço para a individualidade nem para a livre expressão do pensamento. 
b) Espera-se que os alunos percebam que, em- bora se refira a um fato pontual, o episódio relatado por Ana Maria Machado flagra uma mentalidade vigente em boa parte do país, que naquela época vivia sob um regime restritivo e conservador. 

4. A censura, nesse caso, era também religiosa: os livros de Lobato deveriam ser queimados não apenas porque ele era "comunista" (o que depois Ana Maria descobriu ser uma inverdade), mas também porque, segundo a professora, "falava mal da religião" e "desrespeitava a Igreja". 

5. Eles parecem ser pessoas que prezavam a liberdade de expressão, não se deixavam levar pelo pensamento dominante e inclusive corriam riscos ao opor-se a ele, como foi o caso do pai da escritora, preso por publicar um artigo considerado inadequado pela censura de Vargas. 

6. Porque ela relata suas experiências de maneira crítica, enfatizando a perspectiva dos pais, que mantinham seu pensamento independente, e da própria Ana Maria Machado, que, desde criança, notava algo de errado na situação (já que as crianças "percebem o universo político em que se movem"). Naturalmente, o entendimento completo das experiências pelas quais passou só tenha se realizado completamente quando a autora se tornou adulta. Observação: mesmo em relatos pessoais sem um senso crítico tão apurado, podemos identificar flagrantes históricos, culturais e políticos se estivermos atentos a todos os indícios do texto. 

7. Resposta pessoal. Sugestão: Sim, pois as experiências relatadas mostram o perigo do pensamento totalitário, seja ele estabelecido pela política ou pela religião. Quando movidas pelo totalitarismo, as pessoas tornam-se intolerantes com quem pensa de modo diferente e podem chegar a cometer atos arbitrários e violentos, como a prisão do pai de Ana Maria, a expulsão da menina da escola ou a queima de livros de Monteiro Lobato. 

Investigue em História/Arte
Galileu, o astrônomo, desenvolveu a teoria de que a Terra gira em torno do Sol (heliocentrismo) e por isso foi condenado pelo tribunal da Santa Inquisição. Já no século XX, Bertolt Brecht foi buscar na vida de Galileu a justificativa do estado de exceção que ocorria em sua terra natal e, para fugir à perseguição do nazismo, deixa a Alemanha. Em 1980, durante a ditadura militar (período em que o controle da liberdade de expressão pode ser comprado ás perseguições religiosas da Idade Média), José Celso Martinez montou a peça Galileu Galiei.




Referência: Conexões em Língua Portuguesa - Produção de Texto (Editora Moderna)
Imagem: Google
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