Exercícios sobre Padre Antônio Vieira (Barroco)


1. Leia o trecho a seguir, extraído do Sermão do bom ladrão, de autoria do Padre Antônio Vieira. 

Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem esse título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais, já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados; estes furtam e enforcam. 

VIEIRA. Padre Antônio. Sermão do bom ladrão. Disponível em: <http://www.dominiopublico. 

a) Vieira descreve, em seu sermão, dois tipos de ladrão. Quais são eles? 
b) Para Vieira, qual desses dois tipos de ladrão é o mais nocivo à sociedade? Como o autor justifica sua posição? 
c) O sermão de Vieira foi escrito há mais de 300 anos. Em sua opinião, a temática do sermão continua atual? 

2. A seguir, está transcrito um trecho da primeira parte do Sermão de Santo Antônio, que Vieira pregou no Maranhão, no século XVII. Leia-o para responder às questões propostas. 

Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal! 
[...] Pregava Santo Antônio em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande Antônio? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas Antônio com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, Antônio pregava e eles ouviam. 
[...] Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra; Santo Antônio foi sal da terra e foi sal do mar. Este é o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que, nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles. [...] 
Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo Antônio, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois não é para eles. Maria, quer dizer, Domina maris: "Senhora do mar"; e posto que o assunto seja tão desusado, espero que me não falte com a costumada graça. Ave Maria. 

VIEIRA, Padre Antônio. Sermão de Santo Antônio. Disponível em: 
<http://www.dominiopublico.gov.br/ Fragmento. 

a) Vieira usa uma metáfora ao chamar de "sal da terra" a palavra dos pregadores. O que ambos teriam em comum para possibilitar essa metáfora? 
b) Logo adiante, Vieira se pergunta qual seria a razão de a terra se manter corrupta, apesar de tantos terem como tarefa combater a corrupção. Que hipóteses ele levanta para explicar o problema? 
c) Vieira, então, compara-se a Santo Antônio. O que possibilita essa comparação? 
d) Explique, no contexto do sermão, qual o sentido da frase: "Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que, nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles." 
e) Ao final dessa primeira parte do sermão, Vieira afirma que pregará "aos peixes", assim como Santo Antônio. Nesse caso, quem seriam os peixes? 

3. (Ufscar - SP) 

O trigo que semeou o pregador evangélico, diz Cristo que é a palavra de Deus. Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa, em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afogasse a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque ou a desatendem, ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons, ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um [...]. 

(Padre Vieira, Sermão da Sexagésima) 

Pode-se dizer que os sermões de Vieira revestem-se de um jogo intelectual no qual se vê o prazer estético do autor para pregar a palavra de Deus, por meio de uma linguagem altamente elaborada. 

a) Um dos recursos bastante utilizado por Vieira é o de disseminação e recolha, por meio do qual o autor "lança" os elementos e depois os retoma, um a um, explicando-os. Transcreva o período em que Vieira faz esse lançamento dos elementos e indique os termos aos quais eles vão sendo comparados. 
b) Explique que comparação conduz o fio argumentativo do Padre Vieira nesse trecho. 

Gabarito

1. 
a) Os ladrões que cortam bolsas, roubam o que está próximo, à mão, e os ladrões que roubam cidades e reinos, ou seja, os governantes corruptos e desonestos.

b) O mais nocivo, para Vieira, é o ladrão que rouba as cidades, pois ele, além de prejudicar mais pessoas, não é punido, mas, sim, tem o poder de punir. 

e) Espera-se que os alunos reconheçam que sim. Na sociedade brasileira, é possível encontrar inúmeros exemplos de corrupção, desonestidade na administração pública e impunidade, o que mostra que a temática continua atual. Este pode ser um bom momento para a discussão do tema política e cidadania. É possível propor uma pesquisa e mesmo um debate entre os alunos a respeito de casos contemporâneos de corrupção e impunidade. Seria interessante aproveitar as ideias trabalhadas por Vieira e propor um contraponto entre os crimes ditos comuns, que recebem punição, e os chamados crimes" do colarinho branco", em que casos de impunidade são muito mais comuns, e discutir sobre as causas que levam a essa situação. 

2.
a) Ambos seriam capazes de impedir a corrupção. 

b) Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar; ou os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou os ouvintes não querem receber a doutrina que lhes dão; ou é porque os pregadores dizem uma cousa e fazem outra, ou os ouvintes querem antes imitar o que os sacerdotes fazem e não fazer o que eles dizem, ou os pregadores pregam a si, a suas ideias, e não as ideias de Cristo; ou os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. 

c) Assim como Santo Antônio, Vieira não desiste de pregar a palavra de Cristo, embora nem todos o ouçam e sigam a doutrina =, mudando de púlpito e de auditório, ou seja, pregando não mais na igreja e para seus fiéis, pregando a outros em outras condições, mas sem desistir de pregar a palavra de Deus. 

d) A frase de Vieira é uma crítica indireta à sua audiência. Ele afirma que prefere pregar como Santo Antônio, ou seja, à maneira dele, sem desistir da doutrina que considera correta, fiel ao Evangelho, mesmo que seu público não absorva suas palavras, a pregar de Santo Antônio, ou seja, falar sobre a vida do santo, sem questionar os procedimentos de seus fiéis, num sermão menos crítico. 

e) Os peixes seriam aqueles ques ainda estariam dispostos a ouvir as palavras de Deus. Num recurso retórico, Vieira afirma que falará aos" peixes" apenas, mas seu sermão se direciona a todos os fiéis que estão presentes. Eles deveriam se arrepender de seu comportamento e voltar-se à doutrina cristã. 

3. 

a) "Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa (em que o trigo caiu) representam os diferentes corações dos homens." Nesse período, são "lançados" os elementos. Na "recolha ", eles são retomados um a um para que sejam comparados aos diversos "corações" ou tipos de homens que, conforme sua natureza, receberam de forma diferente a palavra de Deus, representada pela metáfora do trigo. Os espinhos são os homens que se preocupam com seus próprios interesses materiais e são egoístas; as pedras representam os homens insensíveis, duros de coração; os caminhos são os homens insatisfeitos e intranquilos com o fluxo do tempo e das coisas da vida; a terra boa são os homens que aceitam a palavra de Deus. 

b) Na alegoria do Padre Antônio Vieira, a metáfora que sustenta todo o desenvolvimento do trecho e as demais comparações é a extraída do texto bíblico e usada como epígrafe do sermão: "Semen est verbum Dei" - "a palavra de Deus é semente". 
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