quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Capitães da Areia (Jorge Amado) - Interpretação


Você vai ler um trecho de Capitães da Areia (1937), de Jorge Amado. O romance relata as aventuras de um grupo de crianças abandonadas, na cidade de Salvador, lideradas por Pedro Bala. 

Capitães da Areia 

[...] 
A cidade dormiu cedo. A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em frente. Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi. No trapiche as crianças já dormem. [...] A voz do negro parece se dirigir às estrelas, como que há pranto na sua voz cheia. Ele também procura a amada que fugiu na noite da Bahia. Pedro Bala pensa que a estrela que é Dora talvez ande agora correndo sobre as ruas, becos e ladeiras da cidade a procurá-lo. Talvez o pense numa aventura nas ladeiras. Mas hoje não são os Capitães da Areia que estão metidos numa bela aventura. São os condutores de bonde, negros fortes, mulatos risonhos, espanhóis e portugueses, que vieram de terras distantes. São eles que levantam os braços e gritam iguais aos Capitães da Areia. A greve se soltou na cidade. É uma coisa bonita a greve, é a mais bela das aventuras. Pedro Bala tem vontade de entrar na greve, de gritar com toda a força do seu peito, de apartear os discursos. Seu pai fazia discursos numa greve, uma bala o derrubou. Ele tem sangue de grevista. Demais a vida da rua o ensinou a amar a liberdade. A canção daqueles presos dizia que a liberdade é como o sol: o bem maior do mundo. Sabe que os grevistas lutam pela liberdade, por um pouco mais de pão, por um pouco mais de liberdade. É como uma festa aquela luta. 
Os vultos que se aproximam o fazem levantar desconfiado. Mas logo reconhece a figura enorme do estivador João de Adão. Junto a ele vem um rapaz bem vestido mas com os cabelos despenteados. Pedro Bala tira o boné, fala pra João de Adão: 
 Tu hoje ganhou viva, hein? 
João de Adão ri. Distende seus músculos, seu rosto está aberto num sorriso para o chefe dos Capitães da Areia: 
 Capitão Pedro, eu quero apresentar a tu o companheiro Alberto. 
O rapaz estende a mão para Pedro Bala. O chefe dos Capitães da Areia limpa primeiro sua mão no paletó rasgado, depois aperta a do estudante. João de Adão está explicando: 
 É um estudante da Faculdade mas é um companheiro da gente. 
Pedro Bala olha sem desconfiança. O estudante sorri: 
 Já ouvi falar muito em você e em seu grupo. Você é um batuta ... 
 A gente é macho, sim - responde Pedro Bala. 

AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo: Martins, s.d. p. 190-192


1. Embora o romance discuta problemas sociais e faça fortes críticas, ele tem um tom poético. Identifique e explique uma passagem do primeiro parágrafo em que esse tom apareça. 

2. Pedro Bala tem uma visão positiva da greve. 
a) Que relação pessoal ele tem com esse tipo de movimento social? 
b) O que há em comum entre os Capitães da Areia e os grevistas? 
c) Quem são os participantes da greve mencionada no texto? 

3. O que João de Adão quis dizer a respeito de Alberto ao apresentá-lo explicando: " É um estudante da Faculdade mas é um companheiro da gente."? 

Vocabulário de apoio
apartear: participar de discursos fazendo comentários 
batuta: confiável, valente, camarada 
trapiche: armazém junto ao litoral 


Gabarito:

1. Sugestão de resposta: "A cidade dormiu cedo. A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em frente." - essa passagem constrói um cenário marcado pela suavidade, a qual se estende às crianças dormindo no trapiche, ocultando a brutalidade de sua condição de vida. 

2.
a) O pai de Pedra Bala, um líder grevista, morreu assassinado. Pedra sente ter "sangue de grevista". 
b) Tanto os Capitães da Areia quanto os grevistas lutam pela liberdade e pela sobrevivência ("por um pouco mais de pão"). 
c) São os condutores de bonde, "negros fortes, mulatos risonhos, espanhóis e portugueses, que vieram de terras distantes". 

3. Os estudantes universitários - predominantemente de origem privilegiada - não costumam partilhar das preocupações e dos objetivos das camadas mais desfavorecidas, como a dos trabalhadores (como João de Adão) e dos marginalizados (como Pedro Bala). Apesar disso. o estudante Alberto é um defensor das causas sociais. 




Referência: Ser Protagonista - Língua Portuguesa (Editora SM)
Imagem: Google
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