quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Interpretação do poema Testamento de Alda Lara (Poesia africana)

É comum ouvirmos que os poemas podem ser lidos e interpretados de várias maneiras. Na verdade, um poema pode apontar para uma ou mais leituras possíveis, o que não significa que cada um possa entender o que quiser em sua leitura. Quando se lê um poema, é preciso observar o texto e suas entrelinhas para apreender os sentidos que ele possibilita que o leitor construa. A interpretação de um poema só é válida se for comprovada pelos caminhos de leitura que o próprio texto indica. 

1. Leia com atenção o poema "Testamento", escrito pela angolana Alda Lara (1930-1962), e reflita sobre seu modo de composição e seu significado. 




Testamento

À prostituta mais nova 
do bairro mais velho e escuro, 
deixo os meus brincos, lavrados 
em cristal, límpido e puro... 

E àquela virgem esquecida 
rapariga sem ternura, 
sonhando algures urna lenda, 
deixo o meu vestido branco, 
o meu vestido de noiva, 
todo tecido de renda... 

Este meu rosário antigo 
ofereço-o àquele amigo 
que não acredita em Deus... 

E os livros, rosários meus 
das contas de outro sofrer, 
são para os homens humildes, 
que nunca souberam ler. 

Quanto aos meus poemas loucos, 
esses, que são de dor 
sincera e desordenada... 
esses, que são de esperança, 
desesperada mas firme, 
deixo-os a ti, meu amor... 

Para que, na paz da hora, 
em que a minha alma venha 
beijar de longe os teus olhos, 
vás por essa noite fora... 
com passos feitos de lua, 
oferecê-las às crianças 
que encontrares em cada rua... 


LARA, Alda. Testamento. In: SILVA, Alberto da Costa e (Org.). Poesia africana de língua 
portuguesa: antologia. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003. p. 67. 


lavrados: trabalhados de modo artístico. 
algures: em alguma parte, em algum lugar. 


a) O título do poema é "Testamento". O que é um testamento? Qual é a sua função? 

b) Qual é a relação entre o título e o conteúdo do poema? O que diferencia o poema do documento a que alude? Justifique sua resposta. 

c) Identifique, ao longo do poema, quem são as pessoas contempladas com os bens do eu lírico e o que cada uma receberá como herança. 

d) Em sua opinião, que critério define a distribuição desses bens? 

e) Faça a escansão dos versos da terceira estrofe do poema para definir a sua métrica. 

f) A rima está presente em vários versos do poema. Identifique as palavras que rimam. 

g) A antítese é uma figura de linguagem caracterizada pela aproximação de termos ou ideias que se opõem. Ao elaborar antíteses, o escritor evidencia antagonismos e contradições. Sabendo disso, identifique, pelo menos, uma antítese na primeira estrofe do poema. 

h) Que ideias essa antítese ressalta no poema? 

i) A metalinguagem consiste no uso da própria linguagem para explicar a si mesma. Releia com atenção a quinta estrofe do poema e explique a metalinguagem ali presente. 

j) Segundo o eu lírico, como são os seus poemas? 

k) Tendo em vista a ideia central do poema (a destinação dos bens de um testamento), explique qual é o sentido de o poema terminar com a imagem das crianças encontradas na rua. Releia com atenção especial as três ultimas estrofes para responder. 

l) Você concorda com a ideia de que o principal valor evocado pelo poema é a solidariedade? Por quê? 


Gabarito:

a) É um documento jurídico que tem a função de distribuir os bens, a herança de uma pessoa após a sua morte. 

b) O poema apresenta um testamento poético: resgatando (e deslocando) a função principal do documento jurídico, o eu lírico destina suas "posses" e sentimentos a pessoas amigas, como é esperado, e outros bens são destinados àqueles que ele não conhece, mas que acredita precisarem dele ou de seus "bens". O testamento poético é, portanto, um testamento diferente, marcado pelo modo subjetivo como o texto é escrito. 

c) O eu lírico dará seus brincos de cristal à prostituta mais nova; seu vestido de noiva à virgem esquecida; seu rosário antigo ao amigo ateu; seus livros aos homens humildes e analfabetos e, por fim, seus poemas para o homem amado, para que ele os ofereça às crianças que encontrar na rua. 

d) Sugestão: O eu lírico distribui aos contemplados aquilo que ele imagina que será útil ou agradará a eles. Também é possível pensar que as doações são justamente aquilo que os contemplados não possuem e talvez desejem. 

e) A terceira estrofe apresenta redondilhas maiores, versos de sete sílabas: 
Es- te-meu-ro-sá-rioan- ti-go 
o-fe-re-çoà-que-lea-mi-go 
que-não-a-cre-di-taem-Deus. 
No poema, há somente dois versos que fogem a essa métrica: es-ses-que-são-de-dor (6 sílabas) e queen-con-tra-res-em-ca-da-rua (8 sílabas). 

f) As rimas são: escuro/puro; lenda/renda; antigo/ amigo; Deus/meus; sofrer/ler; dor/amor; hora/fora; lua/rua. 

g) A antítese mais perceptível é "mais nova" / "mais velho"; porém é possível observar outra, com a oposição entre "bairro escuro" / "cristal límpido". 

h) A juventude da prostituta é ressaltada pela referência ao bairro velho. No segundo exemplo, a referência ao escuro ressalta a limpidez dos brincos. Todo o poema é construído sobre contradições - entre o que não se tem e o que o sujeito poético distribui. A antítese inicial inaugura essas contradições. 

i) Na quinta estrofe do poema, o sujeito poético faz referência aos seus próprios poemas, explicando como eles são. 

j) São de dois tipos: os poemas loucos, de dor sincera e desordenada, e os poemas de esperança, desesperada, mas firme. 

k) As últimas estrofes apontam para a dor do sujeito poético e também para a sua esperança, que deveria ser oferecida, na forma de poemas, às crianças que estão em cada rua. Tal gesto simbolizaria a possibilidade de transformação do futuro. 

l) Sugestão: É possível afirmar que as imagens construídas pelo poema relacionam-se com o valor da solidariedade porque, ao fazer o seu "testamento", o eu lírico identifica aquilo que julga ser a carência de cada pessoa e busca contribuir justamente para diminuir essa falta. 




Referência:  Língua Portuguesa (Editora Positivo)
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