Modernismo em Portugal: Vanguardas europeias (interpretação)


1. Faça uma leitura silenciosa dos poemas a seguir identificando o tom de cada um deles (triste, alegre, melancólico, otimista, pessimista, conformado, indignado).

Poema 1 

Dorme, que a vida é nada! 
Dorme, que tudo é vão! 
Se alguém achou a estrada, 
Achou-a em confusão, 
Com a alma enganada. 

Não há lugar nem dia 
Para quem quer achar, 
Nem paz nem alegria 
Para quem, por amar, 
Em quem ama confia. 

Melhor entre onde os ramos 
Tecem dosséis sem ser 
Ficar como ficamos, 
Sem pensar nem querer, 
Dando o que nunca damos.

dossel: armação de madeira ornamentada, usada sobre altares, tronos, leitos

Poema 2 

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o. 
Sou místico, mas só com o corpo. 
A minha alma é simples e não pensa. 

O meu misticismo é não querer saber. 
É viver e não pensar nisso. 

Não sei o que é a Natureza: canto-a. 
Vivo no cimo dum outeiro 
Numa casa caiada e sozinha, 
E essa é a minha definição.

cimo: alto, topo
outeiro: colina


Poema 3 

As rosas amo dos jardins de Adônis, 
Essas volucres amo, Lídia, rosas, 
Que em o dia em que nascem, 
Em esse dia morrem. 
A luz para elas é eterna, porque 
Nascem nascido já o sol, e acabam 
Antes que Apolo deixe 
O seu curso visível 
Assim façamos nossa vida um dia, 
Inscientes, Lídia, voluntariamente 
Que há noite antes e após 
O pouco que duramos. 

insciente: ignorante
volucre: que tem vida curta.




Poema 4 (fragmento) 
Lisbon revisited (1926) 

Nada me prende a nada. 
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. 
Anseio com uma angústia de fome de carne 
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido... 
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto 
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. 

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias. 
Correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eu poderia ver na rua. 
Não há na travessa achada o número da porta que me deram. 

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. 
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. 
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. 
Até a vida só desejada me farta —  até essa vida... 

[...] 


2. Relacione as ideias a seguir aos poemas lidos. 

a) Valoriza o momento presente. 
b) Deseja a integração com a natureza. 
c) Traduz grande angústia. 
d) Revela grande desconcerto diante das opções do mundo. 
e) É pessimista. 
f) Revela grande liberdade poética na adoção de versos livres. 
g) Apresenta grande musical idade devido à métrica fixa de seis sílabas e do esquema de rimas ABABA.

3. Pode-se afirmar que cada eu lírico em questão experimenta a vida de modo distinto? Justifique sua resposta. 

4. Após identificar o tom dos poemas e resolver as atividades sobre eles, você já está mais familiarizado com os seus diferentes significados. Prepare-se agora para a leitura expressiva de cada um deles. Para isso, faça a associação entre o tom do poema, o ritmo e o volume de voz que você deve imprimir durante a leitura. Por exemplo, se o tom for alegre, o ritmo deverá ser mais veloz e a voz mais alta; se for triste, o ritmo deverá ser mais lento e a voz mais baixa; quando o tom do poema estiver entre indignado e pessimista, dê à leitura certa agressividade de modo que possa traduzir mais claramente seus significados. 

Os poemas apresentados foram escritos pelo poeta lisboeta Fernando Pessoa, a partir de um projeto poético singular na literatura portuguesa: a heteronímia. Cada poema pertence a uma diferente identidade poética criada por Pessoa, com personalidade e história próprias. Segue uma caracterização dos três mais importantes heterônimos e do próprio Fernando Pessoa (ortônimo). Os trechos entre aspas, transcritos de carta (de 1935) do próprio Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, encontram-se na introdução do professor Massaud Moisés ao livro O guardador de rebanhos e outros poemas

Alberto Caeiro 
Nasceu em 8 de maio de 1889. É considerado o mestre dos demais. Alberto Caeiro é um guardador de rebanhos, o poeta das sensações, que pretende ver e sentir sem pensar. Considera-se apenas poeta, por isso foge para os campos com o intuito de viver como vivem as flores, as fontes, os prados. Sua poesia é desprovida de métrica e rima. Sua simplicidade não permitiria a produção de uma poesia mediada por elementos muito voltados para a racionalização, como o rebuscamento da forma poética. 

Ricardo Reis 
Em carta ao poeta e crítico Adolfo Casais Monteiro, o próprio Fernando Pessoa apresenta Ricardo Reis: "[...] nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. [...] educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico. [...]  É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria". Essa carta revela a formação cultural de Reis e seu gosto pela poesia clássica. Seu mundo é o do passado. Seus modelos poéticos encontram-se na Grécia e na Roma antigas. 

Álvaro de Campos 
Ao apresentar Álvaro de Campos para Monteiro, Pessoa escreve: "[...] nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 [...] é engenheiro naval, mas agora está aqui em Lisboa em inatividade [...] teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval". Álvaro de Campos, o mais moderno dos heterônimos de Pessoa, é um poeta futurista, das máquinas e da fúria demolidora. Para ele, a existência não faz sentido em muitos aspectos, e isso o leva a explosões de inconformismo e desespero. 

Fernando Pessoa (ortônimo) 
Fernando Pessoa promove a ligação entre o passado lírico português e a modernidade europeia, reunindo a tradição às inovações artísticas do início do século XX. É um poeta melancólico, sentimental, nostálgico, que, embora por vezes não encontre grandes razões para a existência, não traduz essa ideia de modo inconformado e agressivo, como faz Álvaro de Campos.

5. Levando em conta essas informações, na sua opinião quem são os autores de cada um dos poemas apresentados?

6. Junte-se a dois colegas que tenham se identificado com o mesmo poema que você, pesquisem outro texto do mesmo heterônimo ou do ortônimo e preparem uma leitura expressiva, seguindo as orientações apresentadas na atividade 5.

Gabarito

1. 

2.
a)
b) 2
c) 1,4 
d) 4 
e) 1,4 
f) 2,4
g) 1

3. Cada eu lírico experimenta a vida de um modo diferente. Percebe-se maior angústia, maior desconcerto com o mundo nos textos 1 e 4. Nos textos 2 e 3, o eu lírico é mais convicto, parece ter resposta para certos dilemas da existência.

4. Com esta atividade de leitura expressiva, espera-se que os leitores possam se aproximar do universo complexo dos heterônimos de Fernando Pessoa e ter uma experiência significativa que lhes mostre grandes diferenças de personalidade, de objetivos, de interesses que existem entre cada um deles.

5. Poema 1: PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix, 1991. p. 127-128. (Fernando Pessoa, ortônimo). 

Poema 2: PESSOA, Fernando. Poesia: Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 67. (Alberto Caeiro, heterônimo).

Poema 3: PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix, 1991. p. 127-128. (Ricardo Reis, heterônimo). 

Poema 4: PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix. p. 182. (Álvaro de Campos, heterônimo). 

6. Pessoal
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