Questões sobre Memórias póstumas de Brás Cubas Machado de Assis

LXX 
D. Plácida 
Brás Cubas revela como D. Plácida aceitou a função de "alcoviteira" para os encontros entre ele e Virgília. 
[...] 
Virgília fez daquilo um brinco; designou as alfaias mais idôneas, e dispô-Ias com a intuição estética da mulher elegante; eu levei para lá alguns livros, e tudo ficou sob a guarda de D. Plácida, suposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa. 
Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejara a intenção, e doía-lhe o ofício; mas afinal cedeu. Creio que chorava, a princípio: tinha nojo de si mesma. Ao menos, é certo que não levantou os olhos para mim durante os primeiros dois meses; falava-me com eles baixos, séria, carrancuda, às vezes triste. Eu queria angariá-Ia, e não me dava por ofendido, tratava-a com carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevolência, depois a confiança. Quando obtive a confiança, imaginei uma história patética dos meus amores com Virgília, um caso anterior ao casamento, a resistência do pai, a dureza do marido, e não sei que outros toques de novela. D. Plácida não rejeitou uma só página da novela; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciência. Ao cabo de seis meses quem nos visse a todos três juntos diria que D. Plácida era minha sogra. 
Não fui ingrato; fiz-lhe um pecúlio de cinco contos, [...] como um pão para a velhice. D. Plácida agradeceu-me com lágrimas nos olhos, e nunca mais deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem, que tinha no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo. 

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 
São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. p. 171. 
[Fragmento). 


1. No trecho, Brás Cubas fala do "arranjo" que providenciou para que pudesse viver sua relação com Virgília, uma mulher casada. Que arranjo foi esse? 
a) Qual deveria ser o papel de D. Plácida nessa situação? 
b) Como D. Plácida reagiu à função que deveria desempenhar? 

2. Qual é a estratégia de Brás Cubas para conquistar D. Plácida? 
a) Ele sugere que D. Plácida aceitou prontamente sua história para ficar em paz com a consciência. Explique por quê. 
b) De que maneira o relato de Brás Cubas sobre o modo como ganhou a confiança de D. Plácida revela o olhar realista de Machado de Assis para a sociedade em que vive? 

3. Qual é o retrato, bastante cínico, que Brás Cubas faz de D. Plácida no final? 
> Brás Cubas é um representante da elite. De que maneira esse retrato revela a sua visão de mundo em função da posição social que ocupa? 



Gabarito:

1. Brás Cubas providencia uma casinha para que ele e Virgília possam se encontrar com discrição. A casa foi mobiliada pela amante e ele levou alguns livros. Dessa forma, teriam um lugar para viver sua "história de amor". 
a) Para manter as aparências, D. Plácida figuraria como a verdadeira dona da casa. 
b) D. Plácida relutou a princípio em aceitar a casa, mas depois cedeu. Brás Cubas afirma acreditar que, no início, ela chorava ao pensar no "ofício" que deveria desempenhar e que, nos primeiros dois meses, não lhe dirigia o olhar e falava-lhe "séria, carrancuda, às vezes triste". 

2. Em primeiro lugar, age gentilmente com D. Plácida, ainda que ela o tratasse com distância. Depois de ganhar a confiança da senhora, inventa uma história "patética" de seus "amores" com Virgília e de todos os obstáculos que os impediram de ficar juntos. 
a) D. Plácida precisava acreditar que o amor deles era puro e impossível devido aos obstáculos, dessa forma ela não se sentiria tão mal ao acobertar o adultério. 
b) Ao afirmar que D. Plácida aceitou a história "patética" por uma "necessidade da consciência", Brás Cubas revela sua critica à hipocrisia que caracteriza o comportamento da senhora e, por extensão, da sociedade sobre o adultério. 

3. Ao relatar como D. Plácida o agradeceu "com lágrimas nos olhos" e passou a rezar por ele todas as noites, Brás Cubas dá a exata dimensão de seu cinismo em relação ao "nojo" inicial que ela sentia. A gratidão dele, manifestada financeiramente, garantiu-lhe o "afeto" de D. Plácida. 
> Ao deixar evidente que o "nojo" de D. Plácida acabou ao receber o "pecúlio de cinco contos", Brás Cubas deixa clara sua posição social e sua visão sobre o mundo: é possível, com dinheiro, "comprar" a consciência e o respeito das pessoas. 
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