quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Interpretação de texto Os sertões


Trecho I

Os sertanejo é, antes de tudo, um forte. [...] 
A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. 
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímo-do, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. [...] 
Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude. 
Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte [...]. 

Euclides da Cunha. Os sertões: campanha de Canudos. 
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, pp. 129-130.



Trecho II 

Os sintomas do flagelo despontam, lhe [para o sertanejo], então, encadeados em série, sucedendo-se inflexíveis, como sinais comemorativos de uma moléstia cíclica, da sezão assombradora da Terra. Passam as "chuvas do caju" em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços; e pintam as caatingas, aqui, ali, por toda a parte, moqueadas de tufos pardos de árvores marcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamas; e greta-se o chão; e abaixa-se vagarosamente o nível das cacimbas... [...] 
Por fim tudo se esgota e a situação não muda. Não há probabilidade sequer de chuvas. A casca dos marizeiros não transuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolante, pelas chapadas, zunindo em prolongações uivadas na galhada estrepitante das caatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os incêndios inextinguíveis da canícula. O sertanejo, assoberbado de reveses, dobra-se afinal. [...] 
Insulado deste modo no país que o não conhece, em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária, nômade ou mal fixo à terra, o sertanejo não tem, por bem dizer, ainda capacidade orgânica para se afeiçoar à situação mais alta.[...] 

Euclides da Cunha. Os sertões: campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. pp. 148. 153-154. 

GLOSSÁRIO

Transuda: transpira
Sezão: febre cíclica 
Delido: aniquilado, destruído
Moqueadas: queimadas, tostadas
Marcescentes: que murcham, secam
Greta-se: racha-se 
Marizeiros: árvores nativas do Nordeste do Brasil, de ramos espinhosos 
Reverberando: repercutindo 
Canícula: calor muito forte
Assoberbado: dominado, humilhado
Reveses: Desgraças, infortúnios
Situação mais alta: situação mais favorável 


1. Euclides da Cunha, no trecho I, caracteriza o sertanejo a partir de aspectos antagônicos, contraditórios. Identifique dois desses aspectos. 

2. Releia o trecho II e indique as duas causas apontadas pelo autor que explicam por que o sertanejo não consegue alterar a sua sina de intensos sofrimentos.

3. Por que o autor considera que "o sertanejo é, antes de tudo, um forte" se, na verdade, ressalta nos textos a precariedade da vida dos habitantes do sertão? 

4. De tom vibrante, eloquente, marcada pelo rigor formal, pelo vocabulário rico, sonoro, pelas figuras de linguagem e criação de muitas imagens, a linguagem de Euclides da Cunha é bastante original.

a) Que expressões do trecho II foram empregadas para nomear a seca? 
b) Transcreva do primeiro parágrafo do trecho II a imagem que expressa metaforicamente os danos 
c) Que recurso de linguagem imprime forte sonoridade ao trecho transcrito a seguir?

"Passam as 'chuvas do caju' em outubro, rápidas, em chuvisqueiros" prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços [...]." 

5. Baseando-se no trecho II, pode-se afirmar que, em Os sertões, as características do sertanejo parecem ser determinadas pelo ambiente? Justifique sua resposta. 


Gabarito

1. Na aparência, o sertanejo é feio, de andar desconcertado, debilitado, frágil; no entanto, em situações de urgência, revela-se forte, firme e destemido. 

2. De acordo com o autor, o isolamento e as secas cíclicas no sertão são as causas da sina trágica dos sertanejos. 

3. O autor considera o sertanejo essencialmente forte exatamente porque resiste aos intensos sofrimentos determinados pelo meio e pelo isolamento a que está condenado. 

4. 
a) “moléstia cíclica”/ sezão assombrada”
b) “ cinzeiros de uma combustão abafada, sem chamar”
c) A aliteração (repetição de sons consonantais) é o recurso que promovo intensa sonoridade ao trecho: “Passam aschuvas do caju’ em outubro, rápidas, em chuvisqueiros prestes delidos nos ares ardentes, sem deixarem traços [...]”.

5. O trecho II indica que as adversidades impostas pelo ambiente do sertão imprimem no sertanejo uma “rudeza extraordinária”; sendo assim, é verdade que, em Os sertões, o homem parece determinado pelo meio em que vive. 



Referência: Linguagem em Movimento (Editora FTD)
Imagem: Google
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