quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Exercícios sobre colocação pronominal (Mafalda)

1. Leia a tira.

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a)
Por que a fala de Susanita no segundo quadrinho deixa Filipe irritado? 
b) O que o comentário de Susanita no fim da tira revela? 
c) Identifique, no primeiro quadrinho, a oração que contém um pronome oblíquo átono em posição proclítica. 
d) Esse uso está de acordo com a prescrição da norma-padrão? Explique. 
e) Como se justifica a opção por essa colocação pronominal na tira?

2. Leia a seguir o trecho de uma crônica de Machado de Assis dirigida aos usuários de bonde, que, de acordo com o autor, deveriam seguir determinadas regras de convivência. 

[...] 
ART.V 
Dos amoladores 

Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-lhe-à se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-la minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra. 
[...]

MACHADO DE Assis, J. M. In: LUCA, Heloísa Helena Paiva de (Org.). Balas de estalo de 
Machado de Assis. São Paulo: Annablume, 1998. p. 34. 


Vocabulário  de apoio
amolador: que aborrece, irritante 
assaz: muito; bastante 
pespegar: aplicar, assentar com violência 
proponente: aquele que propõe 
resignado: conformado 


a) A crônica apresenta um "artigo V", que trata dos "amoladores". Quem são eles? 
b) As recomendações do artigo tornariam o comportamento dos passageiros de bonde mais adequado? Explique. 
c) O texto traz um exemplo de colocação pronominal pouco comum no português falado no Brasil atualmente. Qual? Como é denominada essa colocação? 
d) A norma-padrão abonaria o emprego do pronome em outra posição? Explique. 
e) Releia, atentando para os pronomes destacados. 

[...] a pessoa deve imediatamente pespegá-los
[...] o proponente deve fazê-la minuciosamente [...]

A que termos mencionados anteriormente se referem esses pronomes oblíquos átonos? 

f) Considere a locução verbal no trecho "[...] o proponente deve fazê-la [...]". Há outras possibilidades de colocação do pronome oblíquo átono nesse caso. Quais? 

3. Leia um trecho do capítulo sobre colocação pronominal da Gramática metódica da língua portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida (1911-1998), cuja primeira edição é de 1943.  

[...] A palavra regra, quando se fala em "regras para a colocação dos pronomes oblíquos", deve ser bem compreendida. A causa, o móvel, o eixo, o princípio fundamental, que explica a diversidade de posição, na frase, do pronome oblíquo, é tão só, única e exclusivamente um: a eufonia [...]. Mas que é, realmente, em gramática, eufonia? [...] é eufônico, numa língua, o que é habitual, o que é costumeiro, o que é geral, e neste sentido é que o aluno deve compreender afirmações como "a posposição não é agradável ao ouvido", "repugna ao ouvido... ". O uso, repetimos, tanto relativo a um grupo quanto a um individuo é que torna eufônica, ou não, determinada incidência tônica: a agradabilidade do som e a suavidade da pronúncia são decorrência natural do hábito. 
[...]
"Virei buscá-lo", "Virei te buscar": Por que essa disparidade de topologia pronominal? Não é válido alegar eufonia. Eufonia é consequência, e não causa de procedimento; o ouvido, quando generalizado o erro, repele o acerto. A coerência de procedimento de colocação dos oblíquos exige o que se impõe para colocar vértebras e espinha no lugar: ginástica, repetição, assiduidade de exercício corretivo. [...] 

ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática metódica da língua portuguesa. 44. ed. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 491 e 501. 


Vocabulário de apoio:

alegar: apresentar como justificativa 
assiduidade: frequência, constância 
disparidade: desigualdade, diferença 
eixo: o ponto mais importante 
incidência: ocorrência 
móvel: causa, razão de ser 
posposição: posição que vem depois de outro elemento em uma sequência 
repelir: evitar, não acolher 
repugnar: recusar, não aceitar 
topologia: estudo sobre a colocação das palavras na frase 

a) O que, segundo o trecho, tornaria uma construção linguística eufônica? 
b) De acordo com o segundo parágrafo, a eufonia seria a causa ou a consequência de um determinado modo de agir? 
c) Que trecho do primeiro parágrafo poderia comprovar sua resposta ao item b? Que trecho do primeiro parágrafo parece contradizer sua resposta ao item b? 
d) De acordo com o texto, o que o autor provavelmente considera um "erro" quanto à ordenação dos pronomes oblíquos em um enunciado? 
e) Como essas construções são tratadas na perspectiva da variação linguística? 
f) Segundo o autor, as construções "erradas" tornam-se eufônicas. Como isso se dá? 
g) Qual é a visão do autor sobre esse fenômeno? Como a analogia entre o uso da língua e a postura corporal revelam essa visão? 
h) Pensando no que você estudou a respeito da variação linguística, esclareça de que forma a eufonia pode ser responsável pelas diferentes possibilidades de colocação do pronome oblíquo átono em um enunciado. 


O texto a seguir é um poema de Mario Quintana. Leia-o para responder às questões. 

Bilhete 

Se tu me amas, ama-me baixinho
não o grites de cima dos telhados 
Deixa em paz os passarinhos 
Deixa em paz a mim! 
Se me queres, 
enfim, 
tem que ser bem devagarinho, Amada, 
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda... 

QUINTANA, Mario. Literatura comentada. São Paulo: Nova Cultural, 1988. p. 8l. 

4. Indique a que regras da norma-padrão a colocação pronominal do primeiro verso obedece. 

5. No segundo verso, a recomendação do eu lírico não deve ser entendida de forma literal. 
a) O que ele pede à sua amada nesse verso? 
b) O que é retomado pelo pronome oblíquo átono o? Por que ele foi usado em próclise? 

6. Releia o último verso. 
a) Relacione a ideia contida nesse verso com o título do poema. 
b) Que palavras e expressões reiteram essa ideia ao longo do poema? 
c) Observe a extensão dos primeiros seis versos e explique de que forma essa estrutura se relaciona ao sentido do poema. 
d) Observe a colocação pronominal no quarto e no quinto versos. Inverta as formas átona e tônica do pronome dos dois versos e indique o que muda no efeito expressivo do poema. 


Gabarito:

1. 
a) Porque Susanita antecipa o fim da piada de Filipe, estragando seu prazer em contá-la. 
b) Apesar da reação raivosa de Filipe, Susanita não percebeu que se tratava, sim, da mesma piada. 
c) "Me contaram [...]". 
d) Não. De acordo com a gramática normativa, não se inicia período com pronome oblíquo átono. 
e) A tira retrata uma situação real de uso da língua, informal e oral, em que os falantes dão referência à próclise no início da oração. 

2. 
a) Os indivíduos que têm prazer em contar sobre sua vida privada a outro passageiro do bonde. 
b) Poderiam tornar, desde que os passageiros compreendessem o tom irônico do autor, que não defende, de fato, que eles batam uns nos outros, mas espera que os típicos "amoladores" evitem fazer longas confidências aos companheiros de trajeto. 
c) Perguntar-lhe-á. Mesóclise. 
d) Não. Segundo essa norma, o verbo no futuro do presente ou do pretérito em início de período levaria o pronome oblíquo átono à posição mesoclítica. 
e) Respectivamente, a pontapés e narração. 
f) O pronome poderia vir na posição proclítica em relação ao verbo auxiliar ou ao principal: "o proponente a deve fazer"; "o proponente deve a fazer". 

3. 
a) O uso constante dessa construção; é eufônico, segundo ele, o que é habitual, costumeiro, geral. 
b) Consequência. 
c) Trecho que comprovaria resposta: "O uso [...] é que torna eufônica, ou não, determinada incidência tônica: a agradabilidade do som e a suavidade da pronúncia são decorrência natural do hábito". 
Trecho que contradiria resposta: "A causa, o móvel, o eixo, o princípio fundamental. que explica a diversidade de posição, na frase, do pronome oblíquo, é tão só, única e exclusivamente um: a eufonia [...]". 
d) O autor provavelmente considera erradas as construções com pronome oblíquo átono que não correspondem à norma-padrão. 
e) São consideradas como usos efetivos e sistemáticos da língua em dadas variedades linguísticas. 
f) A construção assim denominada é repetida pelos falantes, torna-se familiar, e, acostumados a ela, os falantes não a veem como problemática, mas como natural. 
g) O autor vê esse fenômeno como algo reprovável, que deve ser combatido. Isso pode ser comprovado pela sugestão de realizar exercícios sistemáticos de repetição da norma-padrão, como se realizariam exercícios para a "correção" da coluna. 
h) Em comunidades diferentes de falantes - por exemplo. Brasil e Portugal -. há avaliações diferentes a respeito do que soa bem quanto à posição do pronome átono. Assim. haveria regras variadas (dependendo da comunidade de falantes) para sua colocação em relação ao verbo. O critério para julgar uma construção eufônica ou não é mutável. 

4. A conjunção se atrai o pronome me para antes do verbo na construção proclítica ("Se tu me amas,[...] ") ; o verbo aparece após pausa representada pela vírgula e não há fator de próclise na construção enclítica ("[...] ama-me baixinho"). 

5. 
a) Que ela o ame sem fazer alarde de seu amor. que seja discreta. comedida. 
b) O amor que a interlocutora do eu lírico sente por ele: "Não grites o seu amor de cima dos telhados". O fator de próclise consiste na presença de advérbio (não) antes do verbo. 

6. 
a) O bilhete é um gênero caracterizado pela brevidade. Para o eu lírico. a vida e o amor são breves como um bilhete. 
b) Baixinho. não o grites. passarinhos. devagarinho. breve. 
c) Os seis primeiros versos vão sofrendo um encurtamento, que se pode constatar visualmente, até chegar ao verso constituído por uma única palavra (enfim). Essa diminuição progressiva reitera a brevidade da vida e do amor. 
d) "Se tu me amas. ama-me baixinho/ não o grites de cima dos telhados/ Deixa em paz os passarinhos/ Deixa-me em paz! / Se queres a mim, / enfim [...]". A inversão não produziria o mesmo efeito de encurtamento gradual, porque resultaria em versos de outras extensões. Além disso, a sonoridade do poema se alteraria. 




Referência: Ser Protagonista - Língua Portuguesa (Editora SM)
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