Exercícios sobre Urupês (Monteiro Lobato) - Apresentação de Jeca Tatu


Monteiro Lobato, outro escritor do Pré-Modernismo, de maneira apaixonada e com muita franqueza, ajudou a desvendar os problemas brasileiros que causavam tantas discrepâncias sociais. Essa visão apurada sobre o Brasil se deu em parte pelo fato de Monteiro Lobato ser dono de terras no interior paulista e ter sentido de perto as dificuldades da vida no campo, agravadas especialmente pelo declínio da economia cafeeira no Vale do Paraíba. 

Em seus artigos para jornais e em diversos contos, Lobato denuncia, por meio de uma linguagem categórica, áspera e satírica, a miséria e o estado de abandono em que se encontram os caboclos paulistas, esquecidos pelas elites governantes e sem poder contar com uma estrutura agrária que lhes permitisse obter terras e trabalho. Em 1910, Lobato criou o seu mais famoso personagem - Jeca Tatu -, caricatura do caipira que sintetizava essas mazelas, o que provocou intensa polêmica entre os políticos e intelectuais do início do século XX. 

Leia um trecho do conto Urupês, em que o narrador apresenta Jeca Tatu. 

[...] Na mansão de Jeca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. A fim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas consequências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela - santo de mascate. 
 "Por que não remenda essa parede, homem de Deus?" 
 "Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?" [...] 
Um pedaço de pau dispensaria o milagre; mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande Lei do Menor Esforço não vacila. É coerente.
Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores - nada revelador de permanência. 
Há mil razões para isso; porque não é sua a terra; porque se o "tocarem" não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a "criação" come; porque...
 "Mas, criatura, com um vedozinho por ali... A madeira está à mão, o cipó é tanto... " 
Jeca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha. 
— "Não paga a pena." [...]

Monteiro Lobato. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 169-170. 



Glossário:

Urupês:  espécie de fungo parasitário que ataca a parte interna do caule das plantas, comprometendo a saúde e o desenvolvimento do vegetal
Bojou: aumentou em forma de bolsa
Empanzinado: empanturrado, crescido
Barrotes: pedaços de madeira para sustentar forros, telhados
Podriqueira: indecência
Baldrame: viga horizontal que serve de alicerce
Especar: sustentar, escorar
Descalvado: árido, sem vegetação
Moirões: pedaços de madeira


1. Que expressão é utilizada no texto para caracterizar Jeca?

2. Escreva duas razões que justificam a expressão identificada acima.

3. O título do conto, Urupês, indica a analogia que Lobato estabelece entre a vida parasitária de um tipo de fungo e a do caipira. Essa analogia ressalta a concepção de que a população rural paulista:
a) é inferior e não se interessa pelo trabalho.
b) rejeita a promoção de desenvolvimento rural.
c) é desprovida de energia para lutar por melhorias de vida.
d) vive à custa dos proprietários de terras.

Gabarito

1. "sacerdote da Grande Lei do Menor Esforço" 
2. O fato de o caboclo do interior paulista não ser dono da terra em que vive e ser constantemente expulso do lugar em que se instala provisoriamente são as razões que explicam ser ele um "sacerdote da Grande Lei do Menor Esforço".
3. Resposta c.
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