sexta-feira, 10 de março de 2017

Interpretação de crônica - Luis Fernando Verissimo (Cachorros!)


Cachorros!
Luis Fernando Verissimo

Paris é tão bonita que você anda na rua olhando para todos os lados menos para onde pisa. Os cachorros de Paris vão a toda parte com seus donos, comem nos mesmos restaurantes, participam ativamente da sua vida social, frequentam vernissages e palestras, mas o convívio civilizado não afetou seus hábitos de higiene, que continuam iguais aos de cachorros de todo o mundo. 
Há, provavelmente, mais cachorros por habitantes em Paris do que em qualquer grande cidade do mundo. O resultado desta combinação de fatores é que seu deslumbramento com Paris é constantemente interrompido pela sensação deslizante de ter pisado numa das características menos atraentes, e mais comuns, das suas calçadas. Você está admirando a fachada de uma igreja antiga e - iush - passa, em segundos, do barroco ao rococô. Os parisienses já calcularam, com rigor cartesiano, a quantidade de "merde, alors!" depositada nas ruas pelos cachorros dos seus concidadãos. Chega a toneladas anuais. Instituíram patrulhas catacocô, motociclos verdes munidos de aspiradores que percorrem as ruas como tamanduás mecânicos, ou pequenos elefantes crapófilos, sugando os dejetos. Eles não dão conta. Talvez sentindo-se desafiados, os cachorros aumentaram sua produção. Já houve a sugestão de que se alargasse a boca do aspirador e, em vez do cocô, se sugassem os cachorros. Os parisienses não acham graça. Amam seus cachorros com uma devoção cada vez mais difícil de tolerar. Eu, por exemplo, já perdi qualquer simpatia que tinha por esses incontinentes. 
Quando vejo um cachorro na rua tento adivinhar, pelo tamanho ou a sua cara, que peças no caminho eram da sua autoria. Elas rivalizam, na variedade de dimensões e configurações, com os doces expostos nas vitrines das "patisseries". Imagino que cada cachorro tenha, por assim dizer, a sua assinatura, o seu estilo de sujar as calçadas, e noto em muitas das suas obras aquela arrogância no acabamento de quem desdenha a crítica e não teme a retribuição. Preciso me controlar para não gritar "Salaud!" na cara deles. E sair correndo antes que o dono me pegue, claro. 

Disponível em: 
< http://www.joonline.jex.com.br


1. O gênero crônica trata de assuntos ligados ao cotidiano e destaca aspectos aos quais, muitas vezes, não damos atenção. No caso do texto de Luis Fernando Verissimo, que fato do dia a dia é observado e o que essa observação revela? 

2. O humor, nesse texto, resulta da atenção conferida a um fato sobre o qual as pessoas evitam falar. Que fato é esse e por que o narrador escolheu falar a respeito dele? 

3. Paris é famosa pela intensa vida cultural e por concentrar renomados estabelecimentos ligados à moda. A cidade onde você mora também é conhecida por alguma característica peculiar? 

4. Além de mostrar que Paris é uma cidade que, como qualquer outra, apresenta defeitos, o que o cronista deseja provar ao relatar que os cachorros venceram os projetos de limpeza urbana?



Gabarito:

1. Observa-se o comportamento dos cachorros parisienses e o tratamento conferido pelos franceses e esses animais, com o objetivo de mostrar para o leitor, de modo irônico, que mesmo uma cidade como Paris, tida habitualmente como exemplo de elegância, apresenta imperfeições.

2. O texto se concentra na enorme quantidade de cocôs de cachorros espalhados pelas calçadas de Paris. Ao chamar atenção para esse aspecto da realidade, o cronista ressalta um problema urbano, mas também ironiza o estereótipo de perfeição associado, com frequência, à capital da França.

3. Resposta pessoal.

4. Um embate entre os polos da natureza e da cultura , presente no texto, na medida em que os cachorros franceses, por mais que convivam com pessoas consideradas elegantes e refinadas, conservam instintos e comportamentos animais. 





Referência: Português nos dias de hoje (Editora Leya) 
Imagem: Google
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