segunda-feira, 25 de julho de 2016

Análise tirinha Mafalda | Silepse ou concordância ideológica (exercício)

O caso da silepse ou concordância ideológica 

No português, pode ocorrer um caso de concordância, chamado silepse ou concordância ideológica, em que o termo flexionado concorda com a ideia do contexto geral da frase e não segue critérios gramaticais

A silepse é uma figura de linguagem que se inclui entre as chamadas figuras de construção de sintaxe, que se definem como aquelas pelas quais a construção da oração sofre modificações, distanciando-se do padrão gramatical. 

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Na tira, em "mais da metade da população mundial somos crianças", Felipe não usou o verbo na terceira pessoa do singular de modo a fazê-lo concordar com o sujeito da oração. Em vez disso, usou o verbo na primeira pessoa do plural "nós", evidenciando a intenção de incluir-se no grupo constituído por crianças. 


Esse caso de concordância ideológica é também chamado silepse de pessoa, já que a primeira pessoa "somos" foi usada em lugar da terceira pessoa "são". 

Veja agora outros casos de silepse. 


Nesse caso, a forma verbal" desistem" (terceira pessoa do plural) não está concordando com o sujeito "o brasileiro" (terceira pessoa do singular), mas com a ideia implícita de plural que o substantivo" povo" carrega. Trata-se de silepse de número

Veja esta outra ocorrência:


Ao empregar o adjetivo" simpático", o falante está levando em conta o fato de a pessoa a quem se dirige ser um homem em lugar de fazer a concordância com o pronome de tratamento. Esse é um caso de silepse de gênero

Não é necessário ater-se à nomenclatura. O importante é interpretar os efeitos de sentido que a silepse pode criar em um texto. 


Exercício

O texto a seguir foi escrito pelo psicanalista brasileiro Renato Mezan. Leia-o para responder ao que se pede. 

Os brasileiros costumamos nos deslumbrar com algumas características da vida na Europa que contrastam agudamente com o nosso cotidiano: civilidade, limpeza das ruas, eficiência nos serviços públicos, organização em geral. [...] Sem masoquismos desnecessários, não vejo mal em reconhecer que determinadas condições são melhores lá do que aqui, mas também é verdade que "doce" e "educado" nem sempre rimam com "europeu". 
Ou alguém ignora que o velho continente foi palco de inúmeras guerras, perseguições religiosas e políticas, discriminações, fogueiras, torturas e crueldades? E os conquistadores que de lá partiram se mostraram tudo, menos doces para com os índios, africanos e asiáticos com os quais as navegações (e depois o colonialismo) os puseram em contato. 

MEZAN, Renato. Malandros utópicos. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 maio 2009. Caderno Mais!, p. 4. Fragmento. 

a) Por que o autor usou no início do texto" os brasileiros costumamos" em vez de "os brasileiros costumam"? 
b) Qual é a opinião de Renato Mezan sobre a suposta inferioridade dos brasileiros em relação aos europeus? 
c) Que argumentos o autor usa para comprovar seu ponto de vista? 


Gabarito:

a) Porque ele fez uma concordância ideológica, incluindo-se no grupo de brasileiros que costuma deslumbrar-se com características da vida europeia. 

b) Para o autor, há prós e contras no modo de viver europeu, assim como no modo de viver brasileiro. Ou seja, não há razão para deslumbrar-se. 

c) Segundo o autor, antes de acreditar que a Europa tem um modo de vida superior ao do Brasil, é preciso lembrar as inúmeras guerras, as perseguições religiosas e políticas, as discriminações, as torturas e a inquisição que se deram lá. Além disso, ele observa que os colonizadores europeus usaram métodos violentos para conquistar povos indígenas, africanos e asiáticos. 




Referência: Língua Portuguesa (Editora Saraiva)
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