Interpretação do poema "Adormecida" de Castro Alves


Adormecida 
A visão de uma jovem que dorme é a inspiração para este poema de amor. 

Uma noite eu me lembro... Ela dormia 
Numa rede encostada molemente... 
Quase aberto o roupão... solto o cabelo 
E o pé descalço do tapete rente. 

'Stava aberta a janela. um cheiro agreste 
Exalavam as silvas da campina... 
E ao longe, num pedaço do horizonte, 
Via-se a noite plácida e divina.
 
De um jasmineiro os galhos encurvados, 
Indiscretos entravam pela sala, 
E de leve oscilando ao tom das auras, 
Iam na face trêmulos - beijá-la. 
Era um quadro celeste!... A cada afago 
Mesmo em sonhos a moça estremecia... 
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante 
Brincavam duas cândidas crianças... 
A brisa, que agitava as folhas verdes, 
Fazia-lhe ondear as negras tranças! 

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio, 
P'ra não zangá-la... sacudia alegre 
Uma chuva de pétalas no seio... 

Eu, fitando esta cena, repetia 
Naquela noite lânguida e sentida: 
" Ó flor! - tu és a virgem das campinas! 
"Virgem! - tu és a flor de minha vida!... " 

ALVES, Castro. Espumas flutuantes. In: Obra completa. Organização de Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1886. p.124 -125. (Fragmento).

1) O poema descreve uma cena presenciada pelo eu lírico: sua amada adormecida em uma rede. Como a jovem é caracterizada? 

> Essa caracterização sugere uma imagem de mulher mais sensual, diferente daquela apresentada pelos poetas da segunda geração romântica. Justifique, exemplificando suas afirmações com expressões do texto. 

2) Além da moça, outra "personagem" aparece: o jasmineiro. Que papel ele desempenha? 

> Transcreva as expressões que indicam a personificação desse elemento da natureza. 

3) A personificação do jasmineiro e as reações da jovem aos seus "beijos" contribuem para reforçar a sensualidade da cena. Explique por quê. 

4) Releia. 

"Ó flor! - tu és a virgem das campinas! 
"Virgem! - tu és a flor de minha vida! ... " 

> De que maneira, nesses versos, o eu lírico estabelece uma relação de identificação entre a mulher e a natureza? 


Gabarito:

1) Ela está recostada "molemente" na rede, tem o roupão aberto, o cabelo solto e os pés descalços roçam o tapete. 

> As referências ao roupão "quase aberto", aos cabelos soltos e aos pés descalços sugerem a sensualidade dessa mulher. Além disso, o uso da expressão "molemente" para caracterizar a maneira como a moça dorme na rede revela uma languidez que também denota sensualidade. 

2) O jasmineiro age como um amante que, sorrateiramente, afaga a jovem, beija sua face e depois se afasta quando ela tenta beijá-lo. Quando parece que a jovem vai se irritar com suas ações, o jasmineiro derrama-lhe uma "chuva de pétalas no seio". 

> As expressões usadas para qualificar os galhos: "indiscretos", "trêmulos", "alegre". Os verbos que se referem às suas ações: "beijá-la", "fugia", "brincava", "chegava", "afastava-se". E a comparação da planta a uma criança cândida: "Dir-se-ia [...] / Brincavam duas cândidas crianças ..". 

3) Toda a descrição que faz o eu lírico da cena sugere uma espécie de dança amorosa entre a jovem e a natureza, repleta de sensualidade. Os estremecimentos da moça a cada "afago" do jasmineiro, suas tentativas de retribuir os "beijos" e a chuva de pétalas sobre o seu seio reforçam esse clima sensual. 

4) No primeiro verso transcrito, o eu lírico chama o jasmineiro de "flor", caracterizando-o como a "virgem das campinas". No seguinte, dirige-se à sua amada usando a expressão "virgem" e a define como a flor de sua vida. A natureza e a jovem são denominadas pelas mesmas expressões, promovendo-se, dessa forma, a identificação entre elas. 





Referência: Português - Contexto, Interlocução e Sentido (Editora Moderna)
Imagem: Google
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