segunda-feira, 20 de março de 2017

Interpretação de poema em prosa - Clarice Lispector


Uma imagem de prazer
Clarice Lispector 

Conheço em mim uma imagem muito boa, e cada vez que eu quero eu a tenho, e cada vez que ela vem ela aparece toda. É a visão de uma floresta, e na floresta vejo a clareira verde, meio escura, rodeada de alturas, e no meio desse bom escuro estão muitas borboletas, um leão amarelo sentado, e eu sentada no chão tricotando. As horas passam como muitos anos, e os anos se passam realmente, as borboletas cheias de grandes asas e o leão amarelo com manchas - mas as manchas são apenas para que se veja que ele é amarelo, pelas manchas se vê como ele seria se não fosse amarelo. O bom dessa imagem é a penumbra, que não exige mais do que a capacidade de meus olhos e não ultrapassa minha visão. E ali estou eu, com borboleta, com leão. Minha clareira tem uns minérios, que são as cores. Só existe uma ameaça: é saber com apreensão que fora dali estou perdida, porque nem sequer será floresta (a floresta eu conheço de antemão, por amor), será um campo vazio (e este eu conheço de antemão através do medo) - tão vazio que tanto me fará ir para um lado como para outro, um descampado tão sem tampa e sem cor de chão que nele eu nem sequer encontraria um bicho para mim. Ponho apreensão de lado, suspiro para me refazer e fico toda gostando de minha intimidade com o leão e as borboletas; nenhum de nós pensa, a gente só gosta. Também eu não sou em preto e branco; sem que eu me veja, sei que para eles eu sou colorida, embora sem ultrapassar a capacidade de visão deles (nós não somos inquietantes). Sou com manchas azuis e verdes só para estas mostrarem que não sou azul nem verde - olha só o que eu não sou. A penumbra é de um verde escuro e úmido, eu sei que já disse isso mas repito por gosto de felicidade; quero a mesma coisa de novo e de novo. De modo que, como eu ia sentindo e dizendo, lá estamos. E estamos muito bem. Para falar a verdade, nunca estive tão bem. Por quê? Não quero saber por quê. 
Cada um de nós está no seu lugar, eu me submeto bem ao meu lugar. Vou até repetir um pouco mais porque está ficando cada vez melhor: o leão amarelo e as borboletas caladas, eu sentada no chão tricotando, e nós assim cheios de gosto pela clareira verde. Nós somos contentes. 

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. 


1. Qual o tema predominante nesse poema em prosa?

2. Podemos dizer que duas imagens se destacam: a das borboletas e a do leão. Pense sobre o que esses animais representam para você e depois responda: ao lado de qual deles você se sentiria mais protegido? Por quê?

3. O que seria uma ameaça para o eu lírico?

4. Nesse poema em prosa, o eu lírico trabalha sempre a partir da ideia de contrastes. Faça um levantamento das imagens que sugerem esses contrastes. 



Gabarito:

1. Boa parte das imagens e elementos presentes no poema sugere a ideia de proteção.

2. Sugestão: As borboletas, por voarem, evocam a ideia de liberdade. O leão, dada sua ferocidade, é uma espécie de guardião, e esse é significado dado a ele em muitas histórias, principalmente nas histórias mitológicas. 

3. Estar fora da floresta, num enorme descampado e sem bicho algum.

4. Algumas dessas imagens: luz- sombra / clareira-floresta / floresta-descampado / leão-borboletas / preto-branco / chão-tampa.




Referência: Português nos dias de hoje (Editora Leya)
Imagem: Google
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